Quando Cidarta colocava a mão no abdômen, sentia a coluna vertebral pelo estômago, uma semente de arroz por dia, às vezes nada. Semanas, os olhos afundados, a pele amarela e seca. Mal conseguia se levantar. Os cinco companheiros que praticavam com ele olhavam e pensavam, esse homem vai chegar lá. Mas Cidarta estava morrendo. Para entender como ele chegou até esse ponto, precisamos voltar ao momento em que entrou na floresta. Quando Cidarta saiu do palácio, não inventou um caminho novo, fez o que qualquer buscador sério faria na Índia do século quinto antes de Cristo. Foi encontrar os melhores mestres do seu tempo.
A Índia daquela época era um lugar extraordinário para quem buscava respostas. Havia um florescimento imenso de escolas filosóficas, de renunciantes, de pessoas que haviam largado tudo para investigar a natureza da mente. O ar estava saturado de perguntas. Cidarta foi primeiro até Alara Calama. Um mestre respeitado, conhecido por ensinar estados meditativos profundos. Cidarta aprendeu tudo que Alara tinha a ensinar em tempo recorde. O próprio mestre ficou impressionado. Você é igual a mim agora. Fique. Ensine junto comigo. Mas Cidarta sentiu que não era suficiente. Os estados meditativos eram poderosos.
Quando ele entrava neles, o sofrimento desaparecia. Mas quando saía, voltava. Era uma pausa. Não uma saída, foi então para Udaka Ramaputa. Outro grande mestre, novamente aprendeu tudo rapidamente. Novamente o mestre quis que ficasse. Novamente Cidarta percebeu. Não é isso. E então foi ao extremo oposto. Juntou-se a um grupo de cinco acetas que acreditavam que a libertação viria pelo domínio absoluto do corpo. Pela mortificação da carne. Pela guerra declarada contra tudo que é físico e perecível. E Cidarta, que sempre foi radical nas suas decisões. Foi até o limite. Depois além do limite, uma semente de arroz por dia.
Depois nenhuma. Os textos descrevem que suas costelas apareciam como ripas de um telhado velho, que quando tentava tocar a barriga, sentia as costas, que seus olhos haviam afundado tanto que pareciam estar no fundo de um poço. Os cinco companheiros o admiravam mais a cada dia. Esse é o caminho, diziam. Esse homem vai despertar. Mais um dia sentado à margem do Rio Neranjara, fraco demais pra se mover, veio um pensamento. Cidarta se lembrou de um dia na infância, uma festa de plantio no campo. Ele estava sentado sozinho debaixo de uma árvore, observando os trabalhadores. E sem nenhuma razão particular, sem nenhum esforço, sem nenhuma técnica, havia entrado num estado de calma profunda e alegre.
Presente, completamente vivo, não havia sofrimento naquele estado, mas também não havia punição. E ele pensou, passei a infância num extremo, o excesso, o prazer, a proteção de tudo que é difícil. E nos últimos anos fui ao outro extremo, a privação, a punição, a guerra contra o próprio corpo. Nem um extremo, nem o outro, me levou aonde preciso ir. Deve haver um terceiro caminho. Naquele momento, uma jovem chamada Sujata passou com uma tigela de arroz com leite. Ela estava levando a oferenda para um espírito da árvore próxima. Viu Cidarta a beira do Rio e ficou tocada, com gentileza, ofereceu a ele a tigela.
E pela primeira vez em anos, Cidarta aceitou comida de verdade. Os cinco companheiros viram de longe e ficaram chocados. Ele desistiu, abandonou o caminho. É um fraco. E foram embora. Cidarta comeu em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, tinha energia. E com a energia voltou a clareza e foi-se sentar debaixo de uma figueira às margens do Rio. A história dos seis anos no deserto é sobre a sedução dos extremos. A maioria de nós não jejua por semanas. Mas todos conhecemos versões menores dessa mesma armadilha, o trabalho até o esgotamento para provar que somos suficientes, a autocrítica que não tem pausa, a dieta que pune em vez de cuidar.
O relacionamento onde toleramos tudo ou exigimos tudo. O budismo chama de caminho do meio não uma tibieza, não uma mediocridade, mas a descoberta de que a transformação não vem pela guerra contra si mesmo, vem pela compreensão de si mesmo. Hoje, observe um extremo na sua vida, algo que você está fazendo demais ou de menos, não para corrigir agora, só para perceber que existe um equilíbrio que você ainda não encontrou.