Era madrugada, Siddhartha está parado no quarto onde a esposa e o filho dormem, e achou dar a abraçada ao bebê Raula. Ele quer pegar o filho nos braços uma última vez, mas sabe que se fizer isso não vai conseguir ir. E há uma coisa que ele precisa mais do que o abraço. Meses haviam passado desde as quatro saídas, Siddhartha não conseguia dormir, não conseguia fingir que as festas do palácio faziam sentido, não conseguia olhar para o filho sem pensar, esse menino vai envelhecer, vai adoecer, vai morrer. A pergunta não saía. Existe saída do sofrimento? Não para mim. Para todo mundo.
Naquela madrugada ele acorda o cocheiro Shana em silêncio, prepare o cavalo Cantaca. Shana não pergunta o porquê, prepara, e as três da madrugada Siddhartha Gautama sai do palácio pela última vez como príncipe. Os textos posteriores, cheios de poesia, dizem que os deuses amorteceram os cascos do cavalo para que ninguém acordasse. Que flores caíam do céu, que seres celestiais abriram o caminho, mas talvez o mais verdadeiro seja mais simples, era noite, era silêncio. E um homem estava fazendo a coisa mais difícil que alguém pode fazer, deixar o que ama por aquilo em que acredita. Quando chegaram à margem do rio Anuma, longe da cidade, Siddhartha desceu do cavalo, tirou as joias, os anéis, a coroa, entregou tudo a Shana, pegou a espada e cortou o próprio cabelo, trocou as roupas ricas pelas vestes simples de um monge mendicante.
Depois se virou para Shana e disse apenas, volte, e cuide deles, Shana chorou. Os textos dizem que o cavalo Cantaca também chorou e morreu de tristeza pouco depois de voltar ao palácio, poesia provavelmente, mas uma poesia que captura o peso daquela despedida com mais precisão do que qualquer descrição objetiva conseguiria. Siddhartha se virou e entrou na floresta, tinha 29 anos. Aqui é importante dizer o que essa renúncia não foi. Não foi fuga, não foi covardia, não foi indiferença. Os textos mostram que Siddhartha voltou a capila vasto depois de despertar. Encontrou o pai, encontrou Yashodara, encontrou Raula que se tornou um de seus discípulos.
A renúncia não foi sobre deixar de amar, foi sobre reconhecer que o amor que ele tinha profundo e real como era, não era suficiente para responder à pergunta que não o deixava viver. Ele não estava fugindo de Yashodara. Ele estava indo em direção a algo que se encontrasse e poderia oferecê-la e a todos algo mais valioso do que sua presença física, uma forma de viver além do sofrimento. A maioria de nós nunca vai fazer o que Siddhartha fez e não precisa, mas existe uma versão menor e mais cotidiana dessa escolha que aparece em muitos momentos da vida, o momento em que você larga um emprego seguro para fazer algo que importa de verdade, em que termina um relacionamento que não funciona, mesmo amando a pessoa, em que diz não ao que sempre foi esperado de você para dizer sim ao que você realmente é.
Renúncia no sentido budista não é punição, não é acetismo pelo acetismo, é soltar o que está impedindo de avançar. Hoje pense em algo que você está segurando não por amor, mas por medo de largar. Não precisa soltar agora. Só reconheça, em silêncio a diferença entre os dois.