um homem deitado à beira da estrada. Tremendo, a pele com manchas, gemendo baixinho. E o Zidarta olha para o cocheiro. O que aconteceu com esse homem? Ele está doente, meu Senhor. O corpo humano pode adoecer, às vezes levemente, às vezes com gravidade. Isso acontece com todos, todos. Zidarta olha para as próprias mãos. Esse corpo, que nunca lhe deu motivo de preocupação, que sempre funcionou, que ele nunca questionou, pode parar de funcionar, pode trair, mas para entender o peso desse momento, precisamos voltar um pouco. Zidarta tinha 29 anos, nunca havia visto ninguém doente, ninguém velho, ninguém morto, não por ignorância, por proteção deliberada.
O pai havia construído ao redor do filho a ilusão mais completa que o dinheiro podia comprar, e então veio a primeira saída. A carruagem passa por uma rua da cidade, há um homem encostado numa parede, costas curvadas, cabelos brancos e espaços, a pele dobrada sobre os ossos como o tecido velho. O Zidarta nunca havia visto nada assim. O que aconteceu com esse homem? Ele ficou velho, meu Senhor. Os cabelos ficam brancos, os ossos enfraquecem, a mente fica mais lenta. Acontece com todos os que nascem, incluindo você e eu, incluindo você e eu. E o Zidarta pede que voltem ao palácio, fica em silêncio o caminho todo, não porque não soubesse que as pessoas envelhecem, mas porque nunca havia sentido isso em relação a si mesmo.
Nunca havia vivido a frase "eu vou envelhecer", depois veio a segunda saída, é onde encontramos o Zidarta olhando para o homem doente a beira do caminho. E o Zidarta olhança, depois a terceira, uma processão, só chorando, carregando um corpo em volto em tecido branco. Esse homem dorme? Shana esita. Depois responde devagar. Não, meu Senhor. Ele morreu. A vida que havia nele se foi. Esse corpo não vai mais acordar, não vai mais falar com as pessoas que amava. E isso acontece com todos. Silêncio. Sim, meu Senhor. Com todos. E o Zidarta fecha os olhos. E pela primeira vez em 29 anos sente o peso inteiro da condição humana de uma só vez.
"Eu vou envelhecer, eu vou adoecer, eu vou morrer". E a Shodara vai, Raula vai, o Pai vai, tudo o que ele ama, tudo o que ele é, tudo o que ele construiu, vai. Então na quarta saída algo diferente, um homem caminhando pela rua com veste escor de assafrão, cabeça raspada, descalço, sem pertences, sem destino urgente. Ele simplesmente caminha. E há algo na forma como ele caminha que prende o olhar de Zidarta. Não há medo nessa caminhada. Não há pressa. Não há o peso que Zidarta sente no peito desde as últimas três saídas. Quem é esse homem? Um Samana, meu Senhor. Um renunciante.
Alguém que deixou a vida doméstica pra buscar a verdade. E o Zidarta observa o monge até que ele desapareça ao longe. E pensa. Esse homem viu o mesmo que eu vi. O envelhecimento. A doença. A morte. E está caminhando com leveza. Como? As quatro saídas não são uma história sobre Zidarta. São um espelho. Cada um de nós tem as suas. O dia em que percebemos que um dos nossos pais está envelhecendo de verdade. O diagnóstico que chegou sem avisar. O funeral de alguém jovem demais. E às vezes, se tivermos sorte, alguém que nos longe, pensamos como essa pessoa carrega tudo isso e ainda caminha assim.
O que Zidarta fez de diferente não foi sentir essas coisas. É que ele não conseguiu ignorá-las depois de sentir. Fez da pergunta à sua vida. Hoje, pense nas suas próprias quatro saídas. Os momentos em que a impermanência da vida se tornou real pra você. Não como o exercício triste. Como forma de honrar o que essas experiências tentaram lhe ensinar.