Por que ele não ficou em silêncio

Budismo · Temporada 1 · Episódio 8 de 8 — em ordem cronológica

Um homem encontra a resposta para todo o sofrimento. E decide que não vai contar a ninguém.

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Transcrição

Depois de sete dias sob a árvore Bodhi, Buda se levantou e não disse nada. Não foi para a cidade anunciar o que havia descoberto, não reuniu discípulos, não fundou uma religião, ficou ali, caminhando devagar entre as árvores, saboreando, e quase ficou em silêncio para sempre. Os textos registram que veio a Buda um pensamento, o que encontrei é profundo, sutil, difícil de ver, difícil de compreender, pacífico, elevado, não alcançável pela simples lógica, acessível apenas através da experiência direta, e os seres estão tão imersos no apego, tão encantados com o que os agrada, que dificilmente vão conseguir enxergar isso.

Se eu tentar ensinar, vai ser como falar a cegos sobre cores, vou apenas me cansar, é um momento extraordinário. O homem que encontrou o que procurava por 35 anos, que sobreviveu a privações que matariam a maioria, que chegou ao outro lado, estava cogitando não dizer nada, mas então os textos narram que veio um pedido. Na tradição indiana, um ser chamado Brahma Sahrampati, e ele implorou, existem seres com pouca poeira nos olhos, eles vão se perder porque não ouviram o dama, por favor, ensina, haverá quem entenda, seres com pouca poeira nos olhos. Essa imagem é linda, ela não diz que todos vão entender, ela não promete uma multidão de discípulos iluminados, ela diz apenas, existem pessoas que estão quase vendo, que estão perto, que só precisam que alguém aponte a direção, e Buddha olhou para o mundo.

Os textos chamam isso de olhar com o olho da compaixão, e o que ele viu foi um lago cheio de flores de lotos, algumas afundadas na lama, longe da superfície, algumas parcialmente acima da água, já apontando para luz, algumas completamente abertas ao sol, e decidiu ensinar. Foi primeiro para o Parque dos Servos em Sarnati, onde estavam cinco acetas que o haviam abandonado quando ele aceitou a tigela de arroz da jovem sujata. Os cinco ouviram vindo à distância e combinaram entre si, não nos levantemos para recebê-lo, não o respeitemos, ele abandonou o caminho, mas à medida que Buddha se aproximava, algo mudou, algo no porte dele, na qualidade da presença, no silêncio que ele carregava.

Os cinco se levantaram involuntariamente, prepararam o assento, trouxeram água para os seus pés, e Buddha se sentou, e pela primeira vez ensinou as quatro nobres verdades. Aquele momento ficou conhecido como a primeira volta da roda do dama, o primeiro movimento de um ensinamento que se espalharia por toda a Ásia no século seguinte, e chegaria até você, agora, aqui, e os cinco acetas que horas antes o chamavam de fraco tornaram-se seus primeiros discípulos. Há algo nesse detalhe que eu acho reconfortante. O budismo não começou com um grande anúncio, não começou com um milagre diante de uma multidão, não começou com poder ou instituição, começou com um homem excitante, conversando com cinco pessoas que o rejeitavam, debaixo de árvores, a beira de um rio.

A maioria das coisas verdadeiras começa assim. Você chegou ao final da primeira temporada, recorremos a vida de Siddhartha desde o palácio Dourado até a árvore Bodhi, desde um jovem protegido da realidade até o homem que olhou para ela mais diretamente do que qualquer um de seus contemporâneos. E a pergunta que ficou no ar durante toda essa temporada é a mesma que Siddhartha fez naquela primeira noite fora dos portões do palácio. Existe saída do sofrimento? Buddha disse que sim, e disse mais, que essa saída não é encontrada por fé, mas por investigação, não na morte, mas agora, não por graça externa, mas por clareza interna.

Na próxima temporada entramos nos ensinamentos, as quatro nobres verdades, o que é educar de verdade, o que significa impermanência no dia a dia, o que Buddha quis dizer quando disse que você não é quem pensa que é, não como filosofia distante, como ferramentas para a vida que você está vivendo agora. Antes de começar a próxima temporada, escreva uma linha, só uma, sobre o que mais ressoou nessa temporada, o que ficou, o que mudou, mesmo que pequeno, na forma como você vê alguma coisa. Só isso.