Gideão e os trezentos guerreiros · Juízes 6:1–8:35

A Biblia · Temporada 4 · Episódio 10 de 13 — em ordem cronológica

Você acha que precisa de mais para vencer? Prepare-se para uma história onde Deus exige que você tenha menos. Muito menos.

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

Um exército enorme do outro lado do vale. Tantos inimigos que ninguém conseguia contar. Era como tentar contar os grãos de areia na praia. E de um lado só, um homem assustado, com um exército minúsculo. E então Deus chega e faz uma coisa que não tem lógica nenhuma. Ele olha para aquele grupo pequeno de soldados e diz. Ainda é gente demais. Manda a maioria embora. Deixa eu te contar. O povo de Israel estava num tempo ruim. Tinha um povo vizinho chamado Midianitas, que vivia atacando eles. E não era um ataque qualquer. Os Midianitas vinham na época da colheita. Esperavam o trigo crescer.

Esperavam a plantação ficar pronta. E aí desciam como uma nuvem de gafanhotos. Levavam tudo. A comida, as ovelhas, as vacas, os jumentos. Não deixavam nada para trás. O povo de Israel ficou tão apavorado que foi morar em cavernas, escondidos nas montanhas. Com medo de plantar. Com medo de ter qualquer coisa. Porque sabiam que ia ser roubado. E é nesse cenário que aparece o jideão. O jideão era um homem comum. Nada de herói. Quando a gente conhece ele na história, ele está escondido. Batendo o trigo dentro de um buraco, num lugar apertado. Com medo de que os Midianitas vissem e viessem roubar.

E aí acontece uma coisa. Um anjo de Deus aparece para ele. E fala uma frase que é quase de rir. De tão estranha para o momento. O anjo diz. O Senhor está contigo. Homem valente. Para um cara que estava escondido num buraco. Com medo. O jideão devia ter olhado para trás para ver se o anjo estava falando com outra pessoa. E o anjo diz. Você vai salvar Israel da mão dos Midianitas. Eu te enviei. E o jideão faz o que muita gente faria. Ele duvida. Ele diz como assim eu. A minha família é a mais fraca de todas. E dentro da minha família, eu sou o menor de todos. Eu, de tudo quanto é gente, eu, repara nisso.

Deus não escolheu o mais forte. Não escolheu o mais corajoso. Escolheu o que se achava o menor de todos. Mas o jideão ainda estava com medo. E ele pede um sinal. Pede mais de uma vez na verdade. Ele pega um pedaço de lã de ovelha, coloca no chão, na terra de noite. E pede. Se for verdade que você vai me usar, amanhã que a lã esteja molhada de orvalho. Mas o chão em volta esteja seco. E de manhã a lã estava encharcada. Tanto que ele torceu e saiu uma tigela de água. E o chão em volta seco. Mas o jideão ainda quis ter certeza. Ele pediu o contrário. Diz-se, agora deixa a lã seca e o chão em volta molhado.

E de manhã era exatamente isso. A lã seca e tudo em volta coberto de orvalho. Eu gosto desse detalhe. Porque mostra um homem com medo, cheio de dúvida, perguntando duas vezes. E Deus, com paciência, respondendo as duas, sem brigar com ele por causa do medo. E então o jideão junta um exército. Trinta e dois mil homens. Trinta e dois mil. Já era pouco. Perto da multidão de medianitas. Mas pelo menos era alguma coisa. E aí vem a parte mais doida da história. Deus chega pro jideão e diz, é gente demais. Gente demais. Para unsma e pensa. O inimigo era uma multidão sem fim. E Deus diz que trinta e dois mil é gente demais.

Porque Deus explica. Ele diz, se vocês ganharem com um exército grande, vocês vão dizer que ganharam pela própria força. Vão se gabar. Vão achar que foi mérito de vocês. Eu quero que fique claro que quem salvou vocês fui eu. E então Deus começa a diminuir o exército. Primeiro ele diz, quem estiver com medo, pode ir pra casa. E vinte e dois mil homens vão embora. Mais da metade. Sobraram dez mil. Mas Deus diz de novo. Ainda é gente demais. E aí ele faz um teste estranho. Ele manda os homens descer em até a água pra beber. E observa como cada um bebe. A maioria se ajoelhou, abaixou o rosto até a água e bebeu direto, como um bicho.

Mas alguns poucos pegaram a água com a mão, levaram até a boca, ficando de pé, atentos, olhando em volta. E Deus disse, esses, os que beberam da mão, ficando atentos, esses eu vou usar. E quantos eram? Trêsentos. Trêsentos homens. Contra um exército que ninguém conseguia contar. Imagina o Gideão olhando pra aqueles trezentos. Aquilo não era um exército, era um punhado de gente. E Deus diz, com esses trezentos, eu vou salvar vocês. E aí vem a batalha mais maluca que você pode imaginar. Porque eles não atacam com espada. Não atacam com flecha. Deus manda dividir os trezentos em três grupos.

E dá pra cada homem três coisas. Uma trombeta, um jarro de barro vazio e uma tocha de fogo escondida dentro do jarro. Pensa no estranho disso. Eles iam pra guerra com instrumento de música, pote de barro e luz, nenhuma arma de verdade na mão. De noite no escuro total, os trezentos cercaram o acampamento gigante dos medianitas, em silêncio. Cada um com o jarro tampando a luz da tocha. E ao sinal do Gideão, todos ao mesmo tempo fizeram três coisas. Quebraram os jarros no chão com um estrondo, levantaram as tochas e de repente trezentos luzes brilharam no escuro em volta de tudo. E sopraram as trombetas, todas juntas, um barulho em surdecedor, e gritaram.

Agora imagina você dormindo no meio daquele acampamento, no escuro. E de repente, do nada, estrondo de vidro quebrando, luzes brilhando por todos os lados, trombetas tocando como se um exército imenso estivesse atacando. Os medianitas acordaram em pânico, no escuro, sem entender nada, achando que estavam cercados por um exército enorme, e aconteceu uma coisa terrível para eles. Eles começaram a atacar uns aos outros, confundidos, no escuro, batendo nos próprios amigos, achando que era inimigo. E o exército gigante se desfei sozinho, fugindo, se atropelando, se ferindo, sem que os trezentos precisassem quase lutar.

A multidão foi vencida por trezentos homens com trombeta, pote e luz. E acima de tudo, por Deus, e aqui eu paro para pensar, o que mais me pega nessa história não é a batalha. É aquele momento estranho em que Deus diz, é gente demais, a gente vive querendo o contrário, né? A gente quer mais. Mais força, mais gente do nosso lado, mais garantia, mais segurança antes de fazer qualquer coisa. A gente acha que só dá para encarar uma coisa difícil quando estiver tudo a favor. E nessa história o oposto, Deus tira, tira força, tira gente, tira segurança, até sobrar tão pouco que fica óbvio que, se der certo, não vai ser pela força do Gideão, tem uma coisa bonita nisso.

Às vezes a gente se sente pequeno demais para alguma coisa, fraco demais, acha que não tem o suficiente. E talvez justamente aí, no pouco, é que aparece uma força que não vem só da gente. O Gideão começou escondido num buraco, se achando o menor de todos, e terminou liderando uma das vitórias mais lembradas dessa história inteira, não porque ficou forte, mas porque foi, mesmo com medo, mesmo se achando pouco. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa que você está adiando porque acha que não tem o bastante, não tem o tempo o bastante, não sou bom o bastante, não tenho gente o bastante me ajudando, não estou pronto bastante, e repara só hoje, nessa palavrinha, bastante, será que você está esperando ter muito para começar, esperando o exército de 32 mil, quando talvez o que você precisa seja só dar o primeiro passo com os seus 300, com o pouco que tem agora, você não precisa resolver tudo hoje.

Só repara como, às vezes, a gente confunde ter pouco com não dar para fazer. E como o Gideão, escondido no buraco, era exatamente a pessoa que ia mudar tudo, sem nem saber ainda.