Imagina um rio cheio, transbordando, a água subindo pelas margens, forte, correndo rápido, e agora imagina que alguém te diz pra entrar nesse rio, a pé, carregando uma coisa pesada nas mãos, sem ponte, sem barco, e não só você, um povo inteiro, milhares de pessoas, com crianças, com velhos, com tudo que eles tinham. Era isso que tava na frente deles. E parecia impossível, deixa eu te contar como foi. O povo de Israel tinha chegado na beira da terra prometida, faltava só uma coisa pra entrar nela, atravessar um rio, o rio Jordão, e o problema é que não era qualquer época do ano, era a época das colheitas, quando o rio enchia.
O texto diz isso, com cuidado, o Jordão transbordava por todas as margens, quer dizer, era o pior momento possível pra atravessar. A água estava no ponto mais alto, mais forte, mais perigoso, mas o Josué, o líder, dá a ordem mesmo assim, ele manda o povo se preparar, e diz uma coisa que deve ter dado um frio na barriga em todo mundo, amanhã o Senhor vai fazer maravilhas no meio de vocês. E aí ele dá uma instrução estranha, tinha uma coisa muito sagrada no meio daquele povo, uma espécie de caixa, ou baú, feita de madeira coberta de ouro, chamavam de arca, era o objeto mais sagrado que eles tinham, pra eles, era como se a presença de Deus andasse junto com aquela caixa, e quem carregava a arca, eram os homens chamados sacerdotes, os encarregados das coisas sagradas, o Josué dá a ordem, os sacerdotes vão na frente e carregando a arca, e o resto do povo vem atrás, a uma certa distância, pra todo mundo poder ver pra onde a arca ia, porque ninguém conhecia aquele caminho, eles nunca tinham passado por ali, e aí vem o detalhe que faz toda a diferença, Deus dá uma ordem que exige coragem de verdade.
Ele diz assim que os pés dos sacerdotes tocarem na beira da água, o rio vai parar, para e pensa no que isso pede, a água não ia parar primeiro, pra eles entrarem no seco, não, eles tinham que entrar no rio cheio, molhar os pés na água que tava transbordando, e só depois disso, só quando o pé já estivesse dentro, é que o milagre ia acontecer, quer dizer, eles tinham que dar o passo antes de ver a prova, e foi o que aconteceu, os sacerdotes carregando a arca chegam na beira do rio, e não param, eles entram, os pés deles tocam a água que tava correndo forte, e no momento em que os pés tocam a água, acontece, o texto descreve com um detalhe lindo, a água que vinha de cima, lá de longe, do lado de cima do rio, parou, empilhou, ficou parada formando como que uma parede de água, bem longe dali, e a água que tava embaixo dos sacerdotes escou, foi embora rio abaixo, em direção ao mar, e o chão do rio ficou seco, os sacerdotes, carregando a arca, param ali no meio do rio, no chão seco, firmes, parados, e todo o povo atravessa, por terra seca, no meio do rio, imagina a cena, milhares de pessoas passando, com os pés no chão seco, e do lado deles parada no ar, uma parede de água segurando, e lá no meio, os sacerdotes de pé, segurando a arca, esperando todo mundo passar, eles não saíram do meio do rio até a última pessoa atravessar, e aí, quando o povo todo já tava do outro lado, Deus manda o Josué fazer uma coisa que eu acho uma das mais bonitas dessa história inteira, ele manda escolher 12 homens, um de cada tribo, um de cada família grande do povo, e manda cada um deles voltar ao meio do rio, no lugar exato onde os sacerdotes estavam de pé, e pegar uma pedra, uma pedra grande, pesada, do fundo do rio, 12 homens, 12 pedras, carregadas nas costas pra fora do rio, e o Josué empilha aquelas 12 pedras juntas, do outro lado, na terra prometida, faz um monte de pedras, um monumento, e ele explica porquê, ele diz, um dia, no futuro, os seus filhos vão olhar pra essas pedras e perguntar, o que são essas pedras, e aí vocês vão poder contar pra eles, vocês vão dizer, aqui, as águas do Jordão pararam diante da Arca do Senhor, quando ela passou, o rio parou, essas pedras são pra lembrar disso pra sempre, que ideia linda, porque a gente esquece, a gente vive uma coisa enorme, o momento em que tudo se abre, e meses depois a gente já tá duvidando, já tá com medo de novo, já esqueceu que um dia o rio parou na nossa frente, e o Josué entendeu isso, por isso ele montou as pedras, pra ter uma coisa física, que você pode tocar, que serve de lembrança, um jeito de dizer pros filhos, e pra si mesmo, olha, aconteceu, não foi sonho, bem aqui, e aí os sacerdotes finalmente saem do meio do rio, no momento em que eles pisam na terra firme, com a Arca, a água do Jordão volta, desce de novo, enche tudo de novo, transbordando como antes, como se nada tivesse acontecido, mas algo tinha acontecido, o povo todo já estava do outro lado, eles tinham entrado na terra prometida, e eu fico pensando muito nessa travessia, o que mais me toca é aquele detalhe do começo, o rio só parou depois que o pé tocou a água, porque a gente queria que fosse o contrário, a gente queria ver o caminho aberto primeiro, a água já parada, o seco garantido, e aí sim dar o passo, mas não foi assim que funcionou, eles tiveram que molhar o pé na água que corria forte, sem ter prova nenhuma de que ia dar certo, o milagre não veio antes da coragem, veio depois dela, e acho que a vida é muito assim, a gente fica parado na beira, esperando ter certeza absoluta antes de começar qualquer coisa, esperando medo passar, esperando ver o caminho inteiro aberto, e às vezes o caminho só se abre quando a gente coloca o pé na água, aqui vai uma coisa para hoje, tem duas coisas nessa história para levar, e elas conversam, a primeira é o passo na água, pensa numa coisa que você está adiando porque quer ter certeza antes, e só por hoje, repara que talvez a certeza só venha depois do primeiro passo, não antes, os pés primeiro, o caminho depois, e a segunda é a pilha de pedras, pensa numa vez na sua vida em que uma coisa difícil se abriu, em que você atravessou um rio que parecia impossível, uma doença que passou, uma fase escura que terminou, uma porta que abriu quando você já tinha desistido, hoje, monta a sua pilha de pedras, não precisa ser de pedra de verdade, pode ser uma anotação, uma foto que você guarda, uma frase no celular, qualquer coisa que te faça lembrar, olha, eu já atravessei isso uma vez, porque vai chegar outro rio, sempre chega, e no dia em que ele chegar, você vai querer ter as pedras ali, para olhar e lembrar que a água já parou para você antes, e que pode parar de novo.