Dois homens estão escondidos no telhado de uma casa. Embaixo deles, soldados batem na porta, procurando exatamente eles. Os Niza e a dona da casa abrem a porta, olham na cara dos soldados. Emente, calma, sem tremer. E essa mentira salva a vida dos dois homens. E muda o futuro do povo inteiro. Deixa eu te contar quem era essa mulher. O povo de Israel estava na beira da terra prometida. Do outro lado de um rio, tinha a primeira cidade que eles iam ter que enfrentar. Uma cidade chamada Jericó. Jericó era uma fortaleza. Tinha muros altos, grossos, em volta de tudo. Era o tipo de cidade que parecia impossível de tomar.
Então o Josué, o líder do povo, fez uma coisa esperta antes de atacar. Ele mandou dois espiões, dois homens em segredo, para atravessar e dar uma olhada na cidade, ver como era por dentro. Quanto soldados tinham, como era a defesa. Os dois homens entram em Jericó escondidos e vão parar na casa de uma mulher chamada Rahab. E aqui a Bíblia é bem honesta sobre quem era a Rahab. Ela era uma prostituta, uma mulher que vendia o corpo. Ela morava ali, numa casa encostada no muro da cidade. Não era o tipo de pessoa que você esperaria que fosse a heroína de uma história da Bíblia. Mas é ela, é ela que segura tudo.
Acontece que alguém viu os dois espiões entrando e correu para contar para o rei de Jericó. Tem espiões de Israel na cidade, estão na casa da Rahab. O rei manda soldados na hora, eles batem na porta da Rahab e exigem. Entrega esses homens que entraram na sua casa. A gente sabe que eles estão aí. E aqui a Rahab faz uma escolha, uma escolha de vida ou morte. Ela já tinha escondido os dois homens, subiu com eles no telhado e cubriu eles com os talos de linho que estavam secando lá em cima, tipo umas plantas empilhadas. Os dois ficaram embaixo daquilo, sem respirar. E aí ela abre a porta para os soldados e mente com uma calma de gelar.
Ela diz "ah sim, uns homens vieram aqui mesmo, mas eu não sei de onde eram". E quando ia escurecer, na hora de fechar o portão da cidade, eles foram embora. Não sei para onde foram, mas se vocês correm, talvez alcancem eles. E os soldados acreditam, saem correndo pela estrada, atrás de ninguém, e mandam fechar o portão da cidade atrás deles. E os dois espiões continuam ali em cima do telhado, vivos, escondidos embaixo do linho. Quando tudo se acalma, a Rahab sobe no telhado para falar com eles. E o que ela diz é a parte mais importante da história inteira, porque a gente podia pensar que ela ajudou só por bondade ou por interesse.
Mas não. Ela ajudou por uma coisa muito mais funda. Ela diz para eles "mais ou menos assim, eu sei que o Senhor, o Deus de vocês, deu essa terra para vocês. A cidade inteira está morrendo de medo de vocês. A gente ouviu como seu Deus secou o mar quando vocês saíram do Egito. A gente ouviu o que vocês fizeram com outros reis. E quando a gente ouviu isso, o coração de todo mundo aqui derreteu de medo. E aí ela diz a frase que é o coração de tudo. Ela diz porque o Senhor, o Deus de vocês, é Deus lá em cima no céu e aqui embaixo na terra. Para e pensa no que isso significa. Uma mulher de Jericó, uma estrangeira.
Alguém que cresceu adorando outros deuses, ídolos, estátuas, e ela olha para aqueles dois homens e diz "o Deus de vocês é o verdadeiro, o dono do céu e da terra". Ela acreditou. Antes de ver qualquer milagre com os próprios olhos, ela acreditou. Só de ouvir falar. E por causa dessa fé, ela faz um pedido. Ela diz "já que eu fui boa com vocês, jurem que vocês vão ser bons com a minha família. Quando vocês tomarem a cidade, poupem o meu pai, a minha mãe, os meus irmãos, todos os que são meus, não deixem a gente morrer". E os dois espiões fazem um trato com ela. Eles dizem "a nossa vida pela sua".
Se você não contar nada disso para ninguém, quando a gente tomar a cidade, a gente vai te tratar com bondade e verdade. E eles dão uma instrução, um sinal. Eles dizem "amarra um cordão vermelho na janela". Esse fio vermelho, bem na janela, por onde a gente vai descer. E junta toda a sua família dentro de casa. Todo mundo que estiver dentro de casa, com um fio vermelho na janela, vai ser salvo. Quem sair para a rua, a gente não responde. E aí vem o detalhe bonito. A casa da Raab ficava encostada no muro da cidade. A janela dela dava para o lado de fora. Então ela pega uma corda. Amarra na janela e desce os dois homens por ela, pelo muro, para o lado de fora da cidade.
Como quem ajuda a fugir de uma prisão? E ela dá um último conselho de espiã experiente. Vão para o lado das montanhas. Se escondem lá por três dias, até os soldados que estão procurando vocês desistirem e voltarem. Depois vocês seguem o caminho de vocês. E é o que eles fazem. Se escondem nas montanhas por três dias. E os soldados procuram pela estrada, não acham nada, e voltam. Aí os dois espiões atravessam o rio de volta. E chegam onde o juzué estava e contam tudo, ofegantes, animados. Eles dizem, o senhor entregou essa terra toda na nossa mão. A cidade inteira está tremendo de medo da gente.
Olha que diferente da história dos espiões antigos, lá no deserto, que voltaram com medo, dizendo que não dava para vencer. Dessa vez, os espiões voltaram com fé. E em parte foi por causa de uma mulher de Jericó que falou, o Deus de vocês é o dono do céu e da terra. E eu fico pensando muito nessa rabi, porque a Bíblia não esconde quem ela era, uma prostituta de um povo inimigo, numa cidade que ia ser destruída. Do ponto de vista de todo mundo, ela era a última pessoa de quem se esperaria alguma coisa boa. E foi justamente ela que enxergou a verdade que a cidade inteira não quis enxergar.
Todo mundo em Jericó ouviu as mesmas histórias. Todo mundo sentiu o mesmo medo, mas só a rabi transformou aquele medo em fé. Os outros se fecharam atrás dos muros, ela abriu a porta e acho que isso fala muito com a gente, porque às vezes a gente acha que tem que ser uma pessoa perfeita, com um passado limpo, para começar de novo, para fazer parte de algo bom, para mudar de vida. E a história da rabi diz o contrário, não importa de onde você vem, importa para onde você vira o rosto. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa no fio vermelho na janela, a rabi não foi salva porque era boa, ela foi salva porque ela amarrou aquele sinal, aquele pedido de socorro, bem à vista, e ficou dentro de casa esperando, pensa numa coisa, hoje, que você tem vergonha de assumir, um pedido que você não faz porque acha que não merece, uma porta que você não bate porque acha que já passou da hora, e repara só nisso, a rabi não esperou ficar digna para pedir ajuda, ela pediu de dentro da bagunça da vida dela mesma, os niza, os niza resolver nada hoje, só perceber que não existe passado que te impeça de amarrar o seu fio vermelho na janela, de pedir, de recomeçar, de virar o rosto para a direção certa.
A salvação da rabi não começou quando ela ficou boa, começou quando ela abriu a porta.