A ordem mais maluca que um exército já recebeu antes de uma batalha foi essa. Não ataquem, não usem as espadas, não subam no muro, não façam nada do que um exército faz, só andem em volta da cidade e fiquem de boca fechada. Era esse o plano para tomar a fortaleza mais forte da região e contra toda a lógica funcionou. Deixa eu te contar. O povo de Israel tinha acabado de atravessar o rio e entrar na terra prometida e logo na entrada tinha um obstáculo enorme. A primeira cidade, Jericó, Jericó era uma fortaleza, tinha muros altos, grossos dando a volta na cidade inteira e os portões estavam todos fechados.
O texto diz, por causa do povo de Israel, Jericó estava completamente trancada. Ninguém entrava, ninguém saía, os moradores de Jericó estavam apavorados. Eles já tinham ouvido falar do que Deus tinha feito por aquele povo. Então fecharam tudo e se trancaram lá dentro, atrás dos muros, esperando o ataque. E o Josué, o líder de Israel, devia estar pensando como qualquer general pensaria. Como é que a gente derruba um muro desse tamanho? A gente não tem máquinas de guerra, a gente acabou de sair de 40 anos no deserto. E aí Deus fala com ele. E dá o plano, mas não é um plano de guerra, é outra coisa.
Deus diz, olha, eu já te entreguei, Jericó, a cidade, o rei, os guerreiros, tudo, já é seu. Repara nisso. Antes da batalha começar, Deus fala no tempo passado, já te entreguei. Como se já tivesse acontecido. E aí vem as instruções. E elas são estranhas. Deus diz, você e todos os homens de guerra vão dar uma volta em torno da cidade. Uma volta só. E voltam para o acampamento. E vão fazer isso seis dias seguidos. Uma volta por dia. Só andar em volta. Sem atacar. E na frente do exército, ele manda ir os sacerdotes. Os encarregados das coisas sagradas. Carregando a arca, aquela caixa sagrada coberta de ouro, onde para eles morava a presença de Deus.
E sete deles iam tocando umas trombetas feitas de chifre de carneiro. Uns instrumentos que faziam um som forte, comprido. Imagina a cena pelos olhos de quem estava em cima do muro de Jericó, um exército inteiro aparece. E em vez de atacar, ele simplesmente dá uma volta na cidade, em silêncio. Só o som das trombetas. E vão embora. No outro dia, de novo, uma volta. E vão embora. Dia três, a mesma coisa. Dia quatro. Dia cinco. Dia seis. Seis dias. Seis voltas. Nada de ataque. Só aquele cortejo silencioso, com as trombetas tocando, dando a volta indo embora. Eu fico imaginando o povo de Jericó, olhando aquilo do alto, sem entender nada.
Talvez rindo. Talvez com mais medo ainda. Porque coisa que não se entende dá mais medo do que ataque normal. E o Josué tinha dado uma ordem clara para o próprio povo. Ninguém fala nada. Nenhum grito. Nenhuma palavra. Boca fechada. Só no dia certo, na hora certa, é que vocês vão gritar. Seis dias de silêncio. De só andar. De confiar num plano que não fazia o menor sentido para um soldado. E aí chega o sétimo dia. E no sétimo dia, muda. Eles levantam de madrugada, logo que o sol nasce. E dessa vez não dão uma volta só. Dão sete voltas em torno da cidade. Sete voltas. Com as trombetas tocando o tempo todo.
E na sétima volta, na última, quando os sacerdotes dão aquele toque longo, forte, na trombeta, o Josué grita para o povo a ordem que eles esperaram sete dias para ouvir. Gritem, porque o Senhor entregou a cidade a vocês. E todo o povo, que tinha ficado calado por seis dias, solta a voz de uma vez só. Um grito enorme. Milhares de pessoas gritando juntas, ao mesmo tempo, com as trombetas tocando junto. E o muro de Jericó cai. O texto diz que o muro caiu rente ao chão. Desabou. E o povo subiu, cada um direto pra frente, pra dentro da cidade. E tomaram Jericó, clara, e pensa no que aconteceu ali.
Não foi a força do exército que derrubou o muro. Eles nem tocaram nele. Não foi máquina de guerra, não foi ariete, não foi escada. Foi um povo andando, esperando, calado, obediente. E um grito. A coisa mais forte que eles fizeram foi confiar num plano que parecia ridículo. Sete dias andando em círculo, pra um soldado aquilo era perda de tempo, mas era exatamente o teste. Será que eles iam fazer do jeito de Deus, mesmo sem entender. Ou iam querer fazer do jeito deles, com espada e pressa. E tem uma parte que eu não posso deixar de fora. Lembra da Raab. A mulher de Jericó que tinha escondido os espiões de Israel lá atrás.
Os espiões tinham feito uma promessa pra ela. Disseram pra ela amarrar um fio vermelho na janela e juntar a família toda dentro de casa, que eles seriam poupados e o Josué não esqueceu. No meio da cidade caindo, ele manda os dois espiões. Vão na casa daquela mulher e tirem ela de lá, junto com toda a família dela, como vocês prometeram e eles fazem. Tiram a Raab, o pai, a mãe, os irmãos, todos e os colocam em segurança. Aquele fio vermelho na janela salvou a casa inteira. No meio da destruição, a família que confiou foi poupada. E é assim que termina. Jericó cai. A Raab e os delas são salvos.
E o nome do Josué se espalha pela terra toda. O líder novo, que ninguém sabia se ia dar conta, acabava de vencer a batalha mais impossível, do jeito mais impossível. E eu fico pensando muito nessa história. O que mais me pega não é o muro caindo. É os sete dias antes. Os seis dias de andar em círculo, em silêncio, sem ver resultado nenhum. Imagina como deve ter sido difícil. No segundo dia, no terceiro, o muro continuava ali inteiro, firme. Nada acontecia. E eles tinham que voltar no dia seguinte e fazer tudo de novo, sem nenhuma prova de que aquilo ia funcionar. A vitória veio no sétimo dia.
Mas ela dependia dos seis dias em que parecia que nada estava acontecendo. E acho que isso fala demais com a gente. Porque a gente quer o muro caindo no primeiro dia. A gente faz uma coisa boa, uma vez, e já quer ver o resultado. E quando não vê, desiste. Acha que não está funcionando. Mas às vezes a coisa certa é continuar dando a volta. Mesmo sem ver mudança. Mesmo parecendo que é em vão. Confiando que o sétimo dia vem. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa boa que você vem tentando, mas que ainda não deu resultado. Um hábito novo que você está construindo. Uma conversa difícil que você vem tentando ter.
Um esforço que parece que não está mudando nada e repara na vontade de desistir. Aquela voz que diz "jadei três voltas e o muro continua de pé". Não adianta. Hoje, só por hoje. Experimenta dar mais uma volta. Sem esperar que o muro caia ainda. Sem precisar ver resultado. Só fazer de novo a coisa certa. Mais um dia. Como quem confia que os dias caladinhos, sem brilho, em que nada parece acontecer, são justamente os que estão preparando o sétimo. Porque o muro de Jericó não caiu no dia do grito. Ele caiu por causa dos seis dias antes do grito. E você talvez esteja mais perto da sua sétima volta do que imagina.