Rebeca — a noiva para Isaque · Gênesis 24:1–67

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 22 de 37 — em ordem cronológica

Amor à primeira vista? Isso é para os fracos. Uma das maiores histórias de amor de todos os tempos começou com um teste inusitado: água para dez camelos sedentos.

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Transcrição

Um homem precisa encontrar a pessoa certa para alguém que ele nem conhece direito. Numa terra estranha, no meio de uma multidão, e ele decide fazer uma coisa que parece loucura. Deixar a escolha nas mãos do acaso, ou de algo maior que o acaso. Essa é uma das histórias mais longas e mais bonitas do começo da Bíblia. E é, no fundo, uma história de amor. Deixa eu te contar. O Abraão está velho agora. Bem velho. A Sara, a mulher dele, já morreu e tem uma coisa pesando no coração dele. O filho, o Isaac, ainda não tem com quem casar. E o Abraão não quer que o Isaac case com qualquer uma das moças da terra onde eles moram.

Ele quer uma esposa do povo dele, lá da terra de onde ele veio, longe, do outro lado do deserto. Então o Abraão chama o empregado mais antigo da casa, o homem de mais confiança, que cuidava de tudo, e dá uma missão para ele. Vai até a minha terra, encontra a minha família, e traz de lá uma esposa para o meu filho, Isaac. E o empregado fica preocupado. Ele pergunta, e se a moça não quiser vir comigo, eu levo o Isaac até lá? E o Abraão é firme, de jeito nenhum. O Isaac não volta para lá, e diz uma coisa cheia de fé. O Deus que me tirou da minha terra vai mandar o anjo dele na sua frente, e você vai encontrar a esposa certa.

Então o empregado pega dez camelos, carregados de presentes, e parte numa longa viagem. E aqui começa a parte que eu mais gosto. O empregado chega na cidade, lá longe, no fim da tarde, e para perto de um poço de água do lado de fora. Era a hora em que as mulheres saíam para buscar água. E aí ele faz uma coisa linda, ele para, e ora, e faz um pedido bem específico, quase um teste. Ele diz mais ou menos assim, "Senhor, Deus do meu patrão Abraão me ajuda hoje. Olha, eu estou parado aqui ao lado do poço. As moças vão vir buscar água. Então deixa acontecer o seguinte. A moça, para quem eu pedir um gole de água, e que me responder, bebe, e eu também vou dar água para os seus camelos, que seja essa a escolhida para o Isaac.

Para e pensa no tamanho desse pedido. Ele não está pedindo a mais bonita. Não está pedindo a mais rica. Ele está pedindo uma moça generosa. Porque dar água para dez camelos sedentos é um trabalho pesado, demorado, que ninguém faz por um estranho, a não ser que tenha um coração bom de verdade. E aqui vem a parte que dá a repio. O texto diz que antes mesmo dele terminar de orar, uma moça apareceu. O nome dela era Rebeca, e ela era, por acaso, da própria família do Abraão. E o texto faz questão de dizer, ela era muito bonita. A Rebeca desce até o poço, enche o cântaro e sobe.

E o empregado corre até ela e pede, por favor, me dá um pouquinho de água para beber. E ela responde, bebe, meu Senhor, e desce o cântaro na mão para ele beber. E aí, quando ele termina, ela diz a frase exata, a frase do pedido. Ela diz, vou tirar água para os seus camelos também, até todos beberem. E corre, despeja, água, volta ao poço, tira mais, de novo e de novo, para todos os camelos. O empregado fica parado, olhando em silêncio, quase sem acreditar, tentando entender se aquilo que ele pediu tinha mesmo acontecido na frente dele. E acontecerá. Palavra por palavra. Aí ele dá presentes lindos para ela e pergunta de quem ela é filha.

E se tem lugar para ele passar a noite na casa do pai dela. E quando ela diz o nome da família, é a família do Abraão. Exatamente a família que ele tinha vindo procurar. E o empregado se ajoelha ali mesmo e agradece a Deus. Ele diz, o Senhor me guiou direto até a casa certa. A Rebeca corre para casa e conta tudo. E a família recebe o empregado, cuida dos camelos, prepara comida. Mas antes de comer, o empregado diz, eu não vou comer nada antes de contar por que eu vim. E ele conta tudo. A história do Abraão, a missão, a oração no poço e como a Rebeca apareceu fazendo exatamente o que ele tinha pedido a Deus.

Conta tudo com cuidado. E a família ouve e diz uma coisa bonita. Isso veio do Senhor. Não temos nada a dizer contra. A Rebeca está aqui, leva ela e que ela seja a esposa do filho do seu patrão. No dia seguinte, na hora de partir, eles chamam a Rebeca para perguntar uma coisa importante. Eles dizem, você quer ir com este homem? E ela responde com uma única palavra. Sim, eu vou. Repara nisso. Ninguém obrigou a Rebeca. No fim, a escolha foi dela. E ela escolheu ir embora para uma terra que ela nunca tinha visto, para casar com um homem que ela nunca tinha encontrado. Por coragem e por fé.

E aí vem a cena final. Maravilhosa. O Isaac estava no campo, no fim da tarde, andando, pensando. Talvez ainda com saudade da mãe, que tinha morrido. E ele levanta os olhos e vê os camelos chegando ao longe. E a Rebeca, no camelo, levanta os olhos também. E vê aquele homem caminhando no campo, vindo na direção dela. E ela pergunta ao empregado. Quem é aquele homem que vem nos encontrar? E o empregado responde. É ele. É o meu patrão. É o Isaac. E o empregado conta ao Isaac tudo o que aconteceu. E o Isaac leva a Rebeca para dentro da tenda. E o texto termina com uma frase simples e linda.

Ele diz que o Isaac amou a Rebeca. E que ele foi consolado depois da morte da mãe. Amou. E foi consolado. Eu acho essa história tão bonita por um motivo. Repara que o centro dela não é a beleza da Rebeca, nem a riqueza do Abraão. O centro é um gesto pequeno. Uma moça que se ofereceu para dar água aos camelos de um estranho. Ela não sabia que estava sendo observada. Não sabia que aquele momento ia mudar a vida dela para sempre. Ela só foi generosa quando achou que ninguém de importante estava vendo. E foi exatamente essa generosidade escondida que abriu a maior porta da vida dela.

A gente costuma achar que os grandes momentos vêm com aviso. Com luzes, com plateia. Mas muitas vezes eles vêm disfarçados de tarefa pequena. De gestos simples. De um copo de água oferecido sem esperar nada de volta. Aqui vai uma coisa para hoje. Em algum momento do seu dia, faça um gesto de generosidade que ninguém vai ver. Que ninguém vai elogiar. Que não vai render nenhum agradecimento. Pode ser ceder o lugar. Ajudar alguém a carregar uma coisa pesada. Atender alguém com paciência quando você está com pressa. Dar água, no sentido que for, para os camelos de alguém. Faça isso como se ninguém estivesse olhando.

Porque a Rebeca também achava que ninguém estava. E às vezes é justamente aí. no gesto que ninguém vê que as portas mais importantes começam a se abrir.