A morte de Sara e a sepultura dos patriarcas · Gênesis 23:1–20

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 21 de 37 — em ordem cronológica

Ele recebeu a promessa de um continente. Mas tudo o que ele realmente conquistou, por amor, foi um túmulo.

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Transcrição

Um homem que andou a vida inteira sem ter um lugar pra chamar de seu, precisa de repente de um pedaço de terra, o menor possível, só pra enterrar a mulher que ele amava. E essa história, que parece pequena, é uma das mais bonitas da Bíblia. Vou te contar por quê. Lembra do Abraão. Aquele homem que largou tudo e saiu da sua terra atrás de uma promessa. E lembra que Deus tinha prometido dar uma terra inteira pra ele e pros filhos dele. Uma terra enorme. Pois é. A vida inteira do Abraão passou. E ele nunca foi dono daquela terra. Ele morava nela como visitante, como estrangeiro. Andava de um lado pro outro, montava acampamento, levantava acampamento, sempre de passagem.

E aí acontece uma coisa que muda tudo. A Sara morre. A Sara, a mulher do Abraão. A companheira de toda aquela jornada. A que riu quando ouviu que ia ter um filho velha. A que esperou a vida inteira pelo Isaac. Ela morre e o texto diz a idade dela, 127 anos. E aí vem uma frase simples, humana, que aperta o peito. O texto diz que o Abraão entrou pra chorar pela Sara e pra lamentar por ela. Pensa nesse homem, velho, forte na fé. Mas naquele momento só um homem que perdeu a companheira de uma vida inteira, chorando. E aí ele se levanta. Porque tem uma coisa que precisa ser feita. Ele precisa enterrar a Sara e ele não tem onde.

Lembra. Ele não é dono de nada ali. Nem de um pedacinho de chão. Então o Abraão vai até os moradores daquela região. Um povo chamado os Ititas. E ele fala uma frase que diz tudo sobre a vida que ele levou. Ele diz, eu sou um estrangeiro entre vocês. Alguém que mora aqui, mas que não é daqui. E ele pede uma coisa só. Um lugar pra sepultar a sua morta. E agora começa uma cena curiosa. Quase uma dança. Porque do jeito que aquele povo negociava, tudo era feito com muita educação, muita gentileza na frente de todo mundo sentados no portão da cidade que era onde se resolviam os assuntos importantes, os Ititas respondem com toda a reverência.

Eles dizem, senhor, você é um príncipe de Deus no meio da gente. Escolha a melhor das nossas sepulturas. Ninguém aqui vai te negar um lugar. Quer dizer, pode usar a nossa terra de graça, mas o Abraão não quer um favor. Ele quer comprar. Ele quer que aquele pedaço de chão seja dele, de verdade, com um documento na frente de testemunhas. E ele já sabe qual lugar quer. Tem um homem chamado Efron. E o Efron é dono de um campo. E nesse campo tem uma caverna no fim do terreno. Uma caverna que tem um nome. Macpela. O Abraão pede pra comprar essa caverna. E diz, eu pago o preço cheio, o preço justo.

E o Efron faz aquele gesto típico daquela cultura. Ele diz, na frente de todo mundo. Ah, senhor, não precisa pagar nada. Eu te dou o campo, eu te dou a caverna. Pega, é seu, sepulta sua morta. Mas os dois sabem que isso é jeito de falar. É a abertura da negociação. E o Abraão se curva diante do povo e insiste. Ele diz, não. Eu te peço, deixa eu pagar pelo campo. Aceita o dinheiro de mim. E aí, o Efron solta o número. Quase como quem não quer nada. Ele diz, olha, entre eu e você, o que são 400 moedas de prata? Sepulta a sua morta. 400 moedas de prata. Era um valor alto, bem alto.

Mas o Abraão não peixincha, não discute. Ele pesa a prata ali mesmo, na frente de todo mundo, e paga o preço cheio. E o texto faz questão de registrar isso com cuidado, quase como um documento de cartório. Ele diz que o campo, a caverna que estava nele, e todas as árvores que estavam no campo, dentro dos limites dele, passaram a ser propriedade do Abraão. Comprado, confirmado. Diante de todas as testemunhas, no portão da cidade, e ali, naquela caverna, o Abraão sepulta a Sara. E o texto termina repetindo, de novo, que o campo e a caverna foram garantidos ao Abraão pelos Ititas, como lugar de sepultura.

Eu sei que isso pode soar como detalhe chato. Uma negociação de terra, valores, testemunhas. Mas para e pensa no que está acontecendo de verdade aqui. Esse homem recebeu a promessa de uma terra inteira. E o único pedaço dessa terra que ele de fato possui, em vida, depois de tudo, é um túmulo, uma caverna para enterrar quem ele amou. Tem uma beleza triste e enorme nisso. O primeiro pedaço da promessa não foi um palácio, não foi um campo de plantação, não foi riqueza, foi um lugar de descanso, uma raiz fincada no chão. E essa caverna não vira só o túmulo da Sara. Mas para frente, o próprio Abraão vai ser enterrado ali, e o filho dele, e o neto, geração após geração da família da promessa, descansando naquele mesmo pedaço de terra que ele fez questão de comprar e não de ganhar, porque ele queria que fosse deles de verdade.

Não um favor que alguém pudesse tirar depois, uma raiz que ninguém pudesse arrancar. E eu fico pensando numa coisa. O Abraão passou a vida sendo estrangeiro, de passagem, sem se prender a lugar nenhum. Mas na hora de cuidar de quem ele amava, ele parou, fincou um pé no chão e fez questão de fazer direito. Pagou o preço inteiro. Não quis o caminho fácil. Tem horas na vida que a gente passa correndo, de passagem, sem se prender a nada. E tem horas que a gente precisa parar, fincar o pé e dar a pessoa que a gente ama o cuidado completo. Sem atalho, sem fazer pela metade. Aqui vai uma coisa para hoje.

Pensa numa pessoa que você ama. Viva, presente, do seu lado agora. E hoje, faça uma coisa por ela com cuidado completo. Não pela metade, não no automático, não correndo. Pode ser uma conversa em que você presta atenção de verdade, sem olhar o celular. Pode ser um abraço sem pressa. Pode ser um obrigado dito devagar, olhando no olho. O Abraão pagou o preço inteiro por amor. A gente quase nunca precisa pagar tão caro. Mas a gente quase sempre pode dar a alguém a nossa atenção inteira. E isso, em geral, é o presente que mais fica.