A morte de Abraão e as gerações de Ismael · Gênesis 25:1–18

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 23 de 37 — em ordem cronológica

O que acontece quando inimigos enterram um pai? A história final de Abraão não é sobre milagres, mas sobre um fim surpreendente que une o que parecia impossível.

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Transcrição

Tem uma coisa estranha no fim da vida de um homem gigante. O fim costuma ser quieto, sem trovão, sem fogo no céu, sem milagre. Só um homem velho, cheio de anos, que fecha os olhos e descansa. E é assim que termina a vida do Abraão. Mas tem coisas bonitas escondidas nesse fim. Deixa eu te contar. Lembra do Abraão, o homem que largou tudo atrás de uma promessa, que esperou a vida inteira por um filho, que subiu uma montanha com o coração partido e desceu com o filho vivo, que comprou uma caverna para enterrar a mulher que amava. Agora ele está no fim do caminho. E o texto conta uma coisa que pouca gente lembra.

Depois que a Sara morreu, o Abraão já velho, ainda casou de novo, com uma mulher chamada Ketura, e teve mais filhos. Vários. O texto até lista os nomes deles. Esses filhos viraram povos, tribos que foram morar para o lado do deserto, longe, gente que, lá na frente, ia aparecer de novo na história do mundo, em outras terras. Mas o Abraão faz uma coisa importante. Tudo o que ele tinha toda a herança, ele deixa para o Isaac, o filho da promessa. E para os outros filhos, ele dá presentes, cuida deles, e os manda para longe, em vida, para que não houvesse briga depois. Repara nesse cuidado.

Ele organiza tudo antes de partir, não deixa confusão para trás. Separa as coisas com clareza, para que cada um tivesse o seu, e para que a promessa seguisse pelo caminho certo, sem disputa. E aí vem o fim. O texto diz a idade do Abraão, 175 anos, e usa uma expressão linda para falar da morte dele. Ele diz que o Abraão deu o último suspiro, e morreu numa boa velhice, velho e satisfeito. Para nessa frase, velho e satisfeito. Não diz que ele morreu rico. Não diz que morreu poderoso ou famoso. Diz que ele morreu satisfeito, cheio, como quem viveu o que tinha para viver, e não ficou com a sensação de que faltou.

E o texto diz outra coisa. Diz que ele foi reunido ao seu povo, como quem volta para junto dos seus depois de uma longa viagem. E aí acontece uma cena que eu acho uma das mais comoventes desse trecho todo. Quem enterra o Abraão são dois filhos dele, o Isaac e o Ismael. Para você entender o peso disso, eu preciso te lembrar de uma coisa. Esses dois irmãos tinham uma história difícil. O Ismael era o filho mais velho, mas de outra mãe. E lá atrás, anos antes, ele e a mãe dele tinham sido mandados embora de casa. Houve dor ali, houve separação. E mesmo assim, na hora de enterrar o pai, os dois estão lado a lado.

O Isaac e o Ismael juntos sepultam o Abraão. E onde? Naquela mesma caverna, a caverna de Maquipela, o único pedaço de terra que o Abraão tinha comprado ao lado da Sara, pensa nessa imagem. Dois irmãos separados pela vida, reunidos na hora da despedida do pai, a morte fazendo os dois pararem lado a lado pelo menos por um instante, e o texto não paraí. Ele faz uma coisa que parece detalhe, mas é cheia de sentido. Ele dá espaço para o Ismael também. O Ismael não era o filho da promessa. A história principal vai seguir pelo Isaac, mas o texto não joga o Ismael fora. Ele conta que Deus abençoou o Ismael, que o Ismael teve 12 filhos e que esses filhos viraram 12 príncipes, 12 povos.

Lembra que Deus tinha prometido, lá atrás, que o Ismael ia se tornar uma grande nação? Pois é. O texto faz questão de mostrar que essa promessa também se cumpriu, que Deus não esqueceu dele. E o texto registra a morte do Ismael também, na sua idade junto aos seus. Eu acho isso de uma delicadeza enorme. Por que é fácil contar só a história do escolhido e esquecer dos outros? Mas o texto faz questão de dizer. O que não ficou no centro também foi cuidado, também foi abençoado, também teve o seu lugar. Eu fico pensando muito nessa frase do fim do Abraão, velho e satisfeito, porque a gente vive numa época que mede a vida pelo quanto a pessoa acumulou, quanto ela teve, quanto ela alcançou, quanto sobrou, mas o texto não mede a vida do Abraão por isso.

Ele mede por uma palavra, satisfeito. E satisfeito é uma coisa estranha, não é ter muito, é sentir que foi suficiente, é chegar no fim e não ficar com aquele aperto de eu deixei de viver, é ter feito a caminhada e poder descansar em paz. O Abraão não foi um homem perfeito, a história dele tem medo, tem erro, tem hora que ele duvidou, mas no fim ele estava satisfeito, porque ele tinha andado o caminho, tinha confiado, mas mutropessando, tinha cuidado dos seus e tinha deixado as coisas em ordem para quem ficava e os dois filhos lado a lado no túmulo fecham essa história com uma lição silenciosa, que diante da despedida as brigas antigas ficam pequenas, que tem horas que a gente para de competir e só fica em paz um do lado do outro.

Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa briga antiga que você carrega com alguém, um recentimento que você guarda, uma daquelas coisas que no fundo você já nem lembra direito por que começou e só por um momento hoje, imagina os dois, você e essa pessoa lado a lado em paz, sem disputa, sem ter que vencer, você não precisa ligar para ninguém agora nem resolver tudo hoje. Só perceber que no fim essas brigas pesam menos do que parecem, o Isaac e o Ismael não voltaram a ser melhores amigos, eles só pararam lado a lado e deixaram o velho descansar. Às vezes é só disso que a gente precisa, parar de brigar por dentro e descansar um pouco.