O mercador que não deixa de dar nem na pobreza

Budismo · Temporada 12 · Episódio 40 de 50 — em ordem cronológica

E se tudo o que você tem desaparecesse num único dia, e a primeira coisa que você sentisse não fosse medo de passar fome, mas saudade de não poder mais ajudar ninguém? Imagina um homem rico, generoso, que de repente acorda pobre, e descobre que o que mais dói não é ter perdido o ouro, e sim ter perdido a chance de dar.

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Transcrição

E se tudo o que você tem desaparecesse num único dia e a primeira coisa que você sentisse não fosse medo de passar fome, mas saudade de não poder mais ajudar ninguém, imagina um homem rico, generoso, que de repente acorda pobre e descobre que o que mais dói não é ter perdido o ouro e se interperdido a chance de dar? Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava a caminho de se tornar Buda, nascendo vida após vida como pessoa ou como animal, aprendendo, tropeçando e crescendo numa virtude de cada vez. Nesse aqui ele nasce como um mercador chamado Visaya, e a virtude do conto é a generosidade que não existe, aquilo que a tradição chama de dana, o dar.

Visaya era um homem de benares, riquíssimo, dono de 80 crores de moedas, gente que trabalhava pra ele, depósitos cheios, mas o que fazia o nome dele ser conhecido nas ruas não era a fortuna, era o portão da casa dele, que vivia aberto. Visaya tinha mandado construir salões de doação nos quatro cantos da cidade e mais um no centro, seis lugares ao todo onde quem tivesse fome comia, quem estivesse com frio se cobria, quem precisasse de remédio recebia, quem chegasse cansado descansava, todo dia ele gastava uma quantia enorme só com isso, e não dava de qualquer jeito, com cara amarrada, jogando comida como quem joga osso pra cachorro, ele dava olhando no olho, com mão própria, perguntando se a pessoa estava bem, se faltava alguma coisa, repara nisso, porque vai fazer diferença lá na frente, pra Visaya, da era um prazer, não um peso, acontece que essa generosidade toda começou a sacudir o céu, diz o conto que o trono de saca, o rei dos deuses esquentou e ficou desconfortável, como ficava sempre que alguém na terra acumulava virtude demais, saca olhou pra baixo e viu Visaya distribuindo o que tinha, dia após dia sem se cansar, e aí veio aquele pensamento que de vez em quando assalta até os deuses, será que ele dá assim porque sobra, será que essa bondade aguenta a pobreza, ou é só fácil ser generoso quando os celeiros estão cheios, e saca resolveu testar, numa noite sem fazer barulho, ele foi fazendo a riqueza de Visaya assumir, o óleo das lamparinas secou, o mel acabou, os grãos dos depósitos viraram pó, o gado adoeceu, os empregados foram embora, os negócios encalharam, quando a mãe eceu, Visaya estava pobre, não pobre de toa apertado esse mês, pobre de raspar a panela, o homem que sustentava seis salões de doação não tinha mais com que sustentar a própria casa, agora presta atenção no que ele faz, porque é o coração do conto, Visaya não amaldiçoa o destino, não corre atrás do que perdeu, ele se senta, pensa, e a única coisa que o aperta por dentro é uma pergunta, e agora como é que eu vou continuar dando? Ele não chora a fortuna, ele chora a possibilidade de servir, naquele dia ele saiu com a esposa para cortar grama no campo, vendia a grama, juntavam umas moedinhas miudas, e o que ele fazia com o pouco que ganhava, dividia, pegava o que tinha conseguido, separava metade para alguém com mais fome ainda, e seguia com o resto, a pobreza tinha tirado o tamanho da doação, mas não tinha tirado o gesto, onde antes corriam crores, agora corriam migalhas, e ele dava as migalhas com exatamente a mesma alegria com que tinha dado os crores, saca viu aquilo e quis apertar mais, apareceu no ar brilhando, e falou, Visaya, por que você insiste em dar? Foi justamente esse teu hábito de distribuir tudo que te deixou pobre, para de dar, cuida de você, junta de novo a tua riqueza, e depois, quando tiveres muito você dá.

Não é mais sensato? E aqui vem a resposta que faz esse conto valer a pena. Visaya olhou para cima e disse, mais ou menos, mesmo pobre, eu não vou fazer o que não é nobre. A generosidade não é uma coisa que a gente faz quando sobra, os bons dão estando na fartura ou na mingua, quem só dá quando tem de monte, esse aí nunca aprendeu de verdade o que é dar, e eu prefiro morrer dando o pouco que tenho a viver guardando tudo para mim. A riqueza vai e volta, a virtude, se eu largar, não volta sozinha, saca, que era Deus mas não era tolo, entendeu na hora que tinha encontrado algo mais firme que o próprio ouro, revelou que tinha sido ele a tirar tudo, para ver se a bondade de Visaya era de verdade ou de faixada, e reconhecendo que era de verdade, devolveu tudo, multiplicado, e ainda prometeu que dali em diante os celeiros não secariam mais.

Visaya voltou a ser rico, mas o conto deixa claro que ele já era a mesma pessoa quando estava cortando grama no campo. A riqueza só voltou a ser instrumento de uma generosidade que nunca tinha ido embora. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele cutuca um jeito muito nosso de pensar, a gente vive adiando a bondade para quando der, quando eu ganhar mais eu ajudo, quando as contas acalmarem, aí eu dou, primeiro eu me organizo, depois penso nos outros, e nesse depois mora uma armadilha, porque o depois quase nunca chega, e quando chega a gente já arrumou um motivo novo para adiar, a gente trata a generosidade como sobra, como luxo de quem está estável, quando ela é na verdade um hábito do coração que não depende do saldo da conta.

Visaya mostra que dar não é uma consequência de ter, é uma maneira de ser, e que a pessoa que só é generosa na fartura ainda não descobriu que a generosidade tem de mais bonito, que é justamente fazer falta a quem dá e ser dado mesmo assim, e tem uma coisa fina aí que é fácil passar batido. A pobreza não fez Visaya mais agarrado, fez ele mais leve, porque quem dá pelo prazer de dar não está comprando nada com aquilo, não está esperando o troco nem gratidão nem reconhecimento, o dar pra ele já é o ganho, a gente no nosso tempo médio quanto tem o tempo todo, compara, calcula, e quanto mais tem, mais medo de perder, Visaya tinha pouco e não tinha medo nenhum, porque o que ele mais valorizava ninguém podia tirar, aqui vai uma coisa pra hoje, não espera ficar mais folgado pra começar a dar, hoje mesmo com o que você tem agora, escolha uma coisa pequena pra repartir, dinheiro, comida, tempo, atenção, uma carona, uma escuta de verdade, pode ser miúdo do tamanho de uma moeda de grama vendida, o ponto não é o tamanho, é não esperar o depois, dá a tua amigália com a mesma alegria com que você daria o teu crore, e repara como, em vez de te deixar mais pobre, ela te deixa mais livre.