O reino de Baveru e o pavão que ofuscou o corvo

Budismo · Temporada 12 · Episódio 39 de 50 — em ordem cronológica

Você é um tesouro hoje. Mas o que acontece quando surge alguém mais brilhante na sua tela? Ou na sua vida?

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

Imagina uma terra onde ninguém nunca viu uma única ave, nenhum canto de manhã, nenhum bater de asas no fim da tarde, nenhum padal pulando no chão a procura de um grão. E aí, um dia, chega um pássaro só. O primeiro, o que será que acontece com quem é o único da sua espécie num lugar assim? E o que acontece? Mais tarde, quando chega um cês mais bonito e a plateia inteira muda de lado num piscar de olhos. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. Nessas histórias ele aparece às vezes como pessoa, às vezes como animal, e a gente chama essa figura de Bodhisatta, o ser que está virando desperto.

Nesse conto aqui, ele aparece de penas. De penas e de cores que pareciam ter saído do sol. A história começa num reino distante chamado Bavaru. Era um lugar próspero, de gente trabalhadora, com mercados cheios e barcos que cruzavam o mar levando e trazendo riqueza. Mas Bavaru tinha uma coisa estranha, uma ausência que ninguém ali percebia, porque nunca tinham conhecido outra coisa. Em Bavaru não existiam pássaros, nenhum. As crianças cresciam sem nunca ouvir um trinado. Os velhos morriam sem nunca terem visto uma asa abrir contra o céu. Pois bem, um dia, um grupo de mercadores que viajava pelo mar resolveu levar a bordo um corvo daqueles que costumam acompanhar os navios, esperto para achar terra e para limpar as sobras do converso.

Quando esses mercadores aportaram em Bavaru e o povo viu aquele bicho preto pousado no mastro, virando a cabeça, abrindo o bico, soltando um grasnido rouco, foi um alvoroço. O que é aquilo? Que criatura é essa, com bico, com olhos vivos, coberta dessas penas escuras? Nunca tinham visto nada parecido. E o corvo, repara, é um pássaro comum, sabe? É o pássaro do quintal, o que come o que sobra, o que grasna áspero. Mas em Bavaru, onde não havia comparação possível, aquele corvo virou maravilha. As pessoas se aglomeravam só para olhar. Os mercadores, esperto, viram ali uma oportunidade.

Querem o pássaro, então paguem, sem moedas para ver de perto. E se quiserem ficar com ele, o preço é alto, e o povo pagou. Pagou caro, compraram aquele corvo por um punhado de ouro, e o colocaram numa gaiola de honra num lugar de destaque, e ofereciam a ele os melhores grãos, os melhores frutos. Tratavam o corvo como se fosse uma joia rara. O bicho, claro, comia, grasnava, sujava a gaiola, e o povo achava tudo aquilo sublime, porque não tinha como que comparar. Quando você só conhece uma coisa, essa coisa vira o topo do mundo. Acontece que, numa viagem seguinte, outros mercadores chegaram a Bavaru, e esses traziam a bordo um pavão.

E não um pavão qualquer, não. Esse pavão era o Bodhisatta, o futuro Buda, nascido naquela vida com a forma da mais deslumbrante das aves. Os mercadores tinham ensinado o pavão a fazer duas coisas, a abrir a cauda numa roda imensa de azul e verde e dourado quando batiam palmas, e a soltar seu canto claro quando estalavam os dedos. Quando o navio aportou e o povo de Bavaru viu aquilo, deu-se o silêncio. E depois, o espanto. O pavão abriu a cauda, e foi como se mil olhos coloridos se abrissem ao mesmo tempo. Soltou seu canto, e foi como se o ar inteiro ficasse mais leve. As pessoas que tinham pagado uma fortuna pelo corvo olharam para a gaiola do corvo, depois para o pavão.

E na mesma hora entenderam, o corvo que ontem era tesouro, hoje era só um bicho preto e barulhento. Naquele mesmo dia conta a história. O povo de Bavaru tirou o corvo da gaiola de honra e simplesmente o soltou. Largaram ele. Foi embora para a lata do lixo da cidade, esquecido. E todo ouro, toda a reverência, toda a comida boa passaram para o pavão, que agora reinava no lugar mais alto, cercado de gente encantada. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Por que não é só sobre um corvo azarado e um pavão de sorte. É sobre a gente. O corvo nunca mudou. Ele era o mesmo pássaro no dia em que foi comprado por ouro, e no dia em que foi jogado fora.

O que mudou foi a comparação. Enquanto era o único, era rei. No instante em que apareceu algo mais brilhante, virou nada. E a verdade incomoda é que a gente faz isso o tempo todo, com as coisas e com as pessoas, e principalmente com a gente mesmo. A gente vive a vida inteira nessa gaiola do corvo. A gente se sente bem quando é o único, quando ninguém por perto brilha mais. E aí abre o celular, e ali está o pavão. O amigo que viajou para um lugar mais bonito, o colega que ganhou mais, o corpo que parece mais perfeito, a vida que parece mais arrumada. E na hora o nosso ouro vira lixo aos nossos próprios olhos, a mesma vida que era boa cinco min atrás, de repente parece pobre.

Não porque ela mudou, porque apareceu um pavão na tela. O budismo tem um nome para essa armadilha. É a comparação que alimenta o desejo e a inveja, e que rouba a paz de quem se mede pelos outros. O povo de Baveiru não era cruel, era só inconsciente, estava completamente entregue ao impulso de querer sempre o mais brilhante, sem nunca perguntar. Mas o corvo me fez mal, o corvo deixou de ser interessante, não, só deixou de ser o mais. Para quem vive de comparação, deixar de ser o mais já é deixar de valer. E olha que coisa sutil, até o pavão, o Bodhisatta, é interessante aqui, porque o brilho dele não é vaidade, ele é o que é.

A beleza dele não veio de rebaixar o corvo, quem rebaixou o corvo foi a plateia. O pavão só estava sendo pavão. A virtude do conto não está no que brilha mais, e está a enxergar o jogo da comparação e não ser arrastado por ele, nem para cima, achando que você é o pavão, e os outros são corvos, nem para baixo, achando que você é o corvo abandonado quando alguém mais brilhante aparece. Aqui vai uma coisa para hoje. Hoje, quando você sentir aquele aperto da comparação, aquele momento em que algo seu de repente parece pequeno porque você viu algo maior na tela ou na vida de alguém, faz uma pausa e se pergunta uma coisa só.

O que eu tenho mudou, ou só aparecer um pavão. Quase sempre você vai ver que nada mudou, o seu corvo continua sendo o mesmo corvo bom de antes. A sua vida, o seu trabalho, o seu corpo, as suas pessoas, tudo segue valendo exatamente o que valia. Não jogue fora o que é seu só porque, naquele instante, alguém abriu a calda. O valor das coisas não está em serem as mais brilhantes do mundo. Está em serem suas, e em você saberem enxergá-las com olhos que não vivem medindo.