E se a pessoa em quem você mais confia no mundo, aquela que dorme do seu lado todas as noites, estivesse te traindo bem debaixo do seu nariz com a última pessoa que você imaginaria? E se, mesmo depois de descobrir você ainda quisesse muito acreditar que tudo poderia voltar a ser como antes? Esse conto fala de um rei que aprendeu, do jeito mais doloroso possível, que o coração de uma pessoa não se compra, não se prende e não se manda. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava só caminhando vida após vida em direção ao despertar.
Às vezes ele aparecia como um animal na floresta, às vezes como um homem comum, às vezes como rei. Nessa história, ele aparece como um conselheiro sábio, um sacerdote da corte, daqueles que enxergam mais longe do que todo mundo, porque já viram a vida demais. Era uma vez um rei chamado Kandari, que reinava numa cidade grande e próspera. Ele tinha tudo o que um homem podia querer, tinha o trono, tinha os exércitos, tinha os celeiros cheios, tinha um palácio onde o chão era polido até brilhar. E tinha, acima de tudo, uma esposa de uma beleza que parava o tempo. A rainha era tão linda que os poetas da corte gastavam tinta tentando descrever o brilho dos olhos dela, e nenhum chegava perto.
O rei Kandari amava essa mulher de um jeito que beirava a adoração. Repara nisso, porque é importante. Ele não amava só com carinho. Ele amava com posse, com fome, com aquele medo surdo de quem tem algo precioso demais e vive aterrorizado de perder. Ele cobria rainha de joias, de sedas, de perfumes vindos de terras distantes. Ele atendia cada vontade dela antes mesmo dela pedir. E, no fundo do peito, ele se dizia "Uma mulher tão amada, tão cuidada, tão coberta de tudo, jamais poderia querer outra coisa. Como poderia, o que faltava a ela, faltava", e o rei não sabia. Na corte vivia também um conselheiro mais velho, o sacerdote do rei, e era ele o Bodhisatta, o futuro Buda, um homem de falamança e olhar atento que não se deixava enganar pelo brilho das coisas.
Ele observava a corte como quem observa um rio, sem pressa mas sem perder nada do que passa na correnteza. E foi assim, observando que o sacerdote começou a perceber pequenas coisas, um criado que entrava e saía dos aposentos da rainha em horas estranhas, um silêncio que caía quando ele se aproximava, um sorriso trocado rápido demais, escondido depressa demais, nada que se pudesse acusar. Mas o suficiente para que o coração experiente do sábio se apertasse, porque a rainha, aquela mulher coberta de tudo, tinha um amante. E o amante, deixa eu te contar, não era um príncipe bonito, não era um nobre rico, não era um guerreiro de músculos reluzentes, era um homem comum, dizem que até feio, mancando, sem nada de especial, um homem que não tinha nada a oferecer a não ser ele mesmo.
E era exatamente a ele que o coração da rainha tinha se entregado, livre, escolhido, inteiro. Quando a verdade finalmente chegou aos ouvidos do rei Candari, foi como se o chão do palácio se abrisse. Ele não conseguia entender, ele dava tudo, tudo, ouro, palácios, devoção, noites inteiras de adoração. E aquele homem, aquele esfarrapado, não dava nada, como, por que, a cabeça do rei rodava na mesma pergunta, sem achar a saída, e, do furo dessa ferida, brotou a fúria. O rei quis matar, quis arrasar, quis, num primeiro impulso, mandar executar a rainha ali mesmo, e o amante junto, e quem soubesse, e quem tivesse visto.
A dor dele era tão grande que só sabia se expressar como destruição. Foi aí que o sacerdote, o bodhisatta, se ajoelhou diante do rei e pediu calma, não para defender a traição. A traição era um fato e dolorida. Mas para defender o próprio rei de uma coisa pior do que a traição, a cegueira da raiva, majestade, disse o sábio, com aquela voz que não se exalta, o senhor quer matar pelo que aconteceu no seu palácio. Mas antes de matar, deixe que eu lhe mostre uma coisa, venha comigo sem o seu exército, sem a sua coroa. Vamos só aos dois, vestidos como andarilhos, ver o mundo lá fora.
E o rei, talvez por estar tão quebrado que já não sabia o que decidir, aceitou. Os dois saíram pela estrada como dois homens quaisquer. E o que o sacerdote mostrou ao rei, casa após casa, aldeia após aldeia, foi a mesma cena se repetindo de mil formas. Por toda parte, havia gente que amava e gente que traía. Havia maridos enganados e esposas enganadas, havia paixões que floresciam onde ninguém esperava e desejos que escapavam de todas as cercas. O coração humano, mostrou o sábio, é uma água que ninguém repreza de verdade. Você pode construir muros altíssimos em volta de um lago, mas a água acha o caminho dela.
O senhor achava, disse o Bodhisatta, que podia comprar um coração com ouro, que podia prender o amor com presentes. Mas o amor não é coisa que se possua. A rainha não traiu porque ele faltava algo que o senhor podia dar. Ela traiu porque o desejo dela seguiu o caminho dele e nenhum palácio do mundo segura isso. A culpa não está só nela, nem só no senhor. Está na natureza das coisas que se agarram, matar não vai lhe devolver o que o senhor nunca teve de fato, o controle sobre o coração de outra pessoa. O rei ouviu, e aos poucos a fúria foi se esvaziando, como uma onda que perde a força na areia.
No lugar dela ficou uma tristeza limpa, sem veneno. O rei Candari entendeu que tinha amado uma ilusão, a ilusão de que possuir alguém é o mesmo que ser amado por alguém, soltou a espada, soltou a vingança. E, dizem, soltou também o trono, porque tinha enxergado uma coisa grande demais para continuar reinando sobre coisas pequenas. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele atravessa os séculos e cai bem no meio da nossa vida hoje. A gente vive numa época que confunde o tempo todo, amar com possuir. A gente checa o celular do outro, a gente quer saber onde a pessoa está, com quem fala, por que demorou para responder.
A gente cobre quem ama de presentes e depois cobra, em silêncio, uma fatura de fidelidade, como se carinho fosse um contrato com cláusula de garantia. E, quando o coração do outro escapa, a gente reage como o rei Candari, com fúria, com vingança, com vontade de destruir o que não conseguiu prender. O budismo chama isso de apego, o padana, é aquele agarrar que confunde o nosso bem-estar com a posse de algo que, por natureza, é livre e mutável. E o conto não está dizendo que traição é bonita nem que não dói, está dizendo uma coisa mais funda. O sofrimento não nasce só do que o outro faz.
Nasce, e muito, da nossa exigência de controlar o incontrolável. A desilusão amorosa é amarga não só porque perdemos a pessoa, mas porque perdemos a fantasia de que tínhamos a pessoa nas mãos. E olha que liberdade existe do outro lado dessa dor. Quando a gente para de tentar prender, a gente começa a amar de verdade, com as mãos abertas, sabendo que tudo é passageiro, inclusive os amores. Não para amar menos, para amar sem a tortura do dono. Aqui vai uma coisa para hoje. Tença numa pessoa que você ama, de qualquer jeito parceiro, amigo, filho, e repara-se, em algum canto você não está tentando segurar essa pessoa com cercas, cobranças, ciúmes, expectativas caladas.
Hoje, escolhe um desses muros e abaixa ele um pouquinho. Em vez de cobrar onde a pessoa esteve, pergunte como ela está. Em vez de exigir garantia, ofereça presença. Ame com a mão aberta como o sábio ensinou ao rei, porque o que se prende foge e o que se solta às vezes fica, mas fica por escolha. E não existe amor mais verdadeiro do que o que é escolhido, livre todos os dias.