Imagina um homem sendo cortado em pedaços, vivo por ordem de um rei bêbado e furioso. E imagina que, no meio daquela dor toda, esse homem não solta uma única palavra de ódio. Pelo contrário, ele abençoa quem está segurando a espada. E sua fraqueza é loucura, ou é a coisa mais forte que um ser humano pode fazer. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava percorrendo, vida após vida, o longo caminho que ia transformá-lo no desperto. Nessa história, o futuro Buda, o Bodhisatta, nasceu como um homem rico que largou tudo e virou a seta numa floresta, e o nome que ficou para ele atravessou os séculos, chamavam ele de Kantivad, que quer dizer, mais ou menos, aquele que ensina a paciência, o pregador da tolerância.
O mestre da Hanti era um homem que tinha tudo para ser amargo e não era, tinha herdado uma fortuna imensa e ao olhar para ela sentiu que riqueza nenhuma enchia o vazio que ele carregava por dentro, então deu tudo, partiu para a floresta dos Himalayas e ali viveu de raízes e frutas, em silêncio, cultivando a mente. Com o tempo desceu até a cidade para arrumar um pouco de sal e vinagre, e acabou ficando acolhido no Jardim do Rei, num cantinho de paz, e quem chegava perto dele saía diferente, ele falava de uma coisa só, com uma serenidade que desarmava, falava da paciência, de não revidar, de segurar a raiva antes que ela vire ação, as pessoas se sentavam aos pés dele e escutavam por horas, agora, o rei daquela terra era um homem chamado Calabú, e Calabú era o oposto exato do acet, era um homem de prazeres, de impulsos, de vinho, naquele dia, ele tinha bebido demais e foi pro Jardim com suas dançarinas, suas músicas, sua corte de bajuladores, em algum momento embalado pela bebida, o rei cochilou no colo de uma das mulheres, e as dançarinas, vendo o rei dormindo, se afastaram em busca de outra distração, foi quando elas viram o acet sentado lá, calmo como uma montanha, e foram até ele, se sentaram em volta, e pediram pra ele falar, e ele falou, falou daquela coisa que era a vida dele, a paciência, a tolerância, o segurar da raiva, o rei acordou, acordou de ressaca, de mau humor, e descobriu que estava sozinho, abandonado pelas mulheres, perguntou onde elas tinham ido, e alguém respondeu, com receio, estão lá, majestade, sentadas em volta de um acet, ouvindo ele pregar, a vaidade ferida de um homem poderoso é uma coisa perigosa, o rei se levantou cego de ciúme e de raiva, marchou até onde o acet estava, e disparou, com desprezo, e você, o que é que você anda ensinando? o acet respondeu, sem alterar a voz, eu ensino a paciência majestade, e aí o rei teve uma ideia cruel, ah, a paciência, então vamos ver o tamanho dessa sua paciência, e ordenou que trouxessem o carrasco com o chicote de espinhos, mandou asoitar o acet, dois mil chibatadas, até a pele e a carne se abrirem, e entre uma rodada e outra, o rei perguntava, satisfeito, e então, onde está a sua paciência agora, e o acet respondia, com a mesma calma de antes, a minha paciência não está na minha pele, majestade, ela está bem no fundo, num lugar onde o seu chicote não alcança, isso enfureceu ainda mais o rei, ele mandou cortar as mãos do acet, depois os pés, e a cada mutilação, perguntava, com aquele sarcasmo doente, e agora, onde está a paciência, e o acet perdendo o corpo aos pedaços, não perdia a serenidade, você pensa que a virtude mora nos meus membros, não mora, ela mora no coração, e ali você não chega, o rei mandou cortar as orelhas, o nariz, o homem estava sendo desfeito vivo, e ainda assim, nenhuma maldição saiu da boca dele, nenhum ódio, olhando aquele rei transbordando de crueldade, o acet sentiu o que se sente por uma criança perdida, pena, e disse, com a vida se esvaindo, vida longa a você, majestade, pessoas como eu não guardam raiva, o meu corpo você pode ferir, a minha paciência você não pode nem tocar, conta-se que, quando o rei saiu dali, pisando duro, a terra mesma não suportou tamanha maldade, e se abriu e o engoliu, o acet morreu pouco depois, em paz, sem uma única gota de ódio no coração, fiel, até o último suspiro, aquilo que ele pregava, fiel acante, agora, repara no que esse conto está dizendo, porque é forte e é fácil entender torto, não é uma história fazendo apologia de aceitar abuso, o budismo não está te pedindo pra ser capaixo de tirando nenhum, o ponto é mais fino, e é sobre uma coisa só, o que o rei conseguiu, e o que ele não conseguiu tocar, ele teve poder absoluto sobre o corpo daquele homem, cortou, feriu, destruiu, mas tem um território que poder nenhum, espada nenhuma alcança, a liberdade interior de não responder o ódio com ódio, o acet perdeu tudo, menos a única coisa que era de fato dele, a paz da própria mente, e aí mora o espelho pra gente, a gente não vive cercado de reis com chicotes, mas a gente vive cercado de provocações pequenas, o dia inteiro, o motorista que fecha, o comentário atravessado, a mensagem ríspida, a fila, a injustiça miuda, e a gente entrega a nossa paz por migalhas, basta um estranho buzinar, e a gente já está com o coração disparado, ofendido, ruminando, devolvendo o ódio multiplicado, repara que coisa estranha, o acet segurou a serenidade dele sendo mutilado, e a gente perde a nossa por uma curtida que não veio, de uma palavra mal colocada, a gente terceiriza a própria paz, deixa qualquer um, a qualquer hora ser o dono do nosso humor, a cante, a paciência de que ele falava, não é engolir sapo calado por dentro fervendo, isso é só raiva represada, e a doce, a cante verdadeira é outra coisa, é não deixar a raiva do outro virar a sua raiva, é enxergar quem te fere e conseguir pensar, essa pessoa está sofrendo, está perdida, e o sofrimento dela não precisa virar o meu, é manter, no meio da provocação, um lugar dentro de você que ninguém invade sem a sua licença, aqui vai uma coisa para hoje, hoje, alguém vai te provocar, vai ser pequeno, provável que seja bobo, alguém vai te cortar no trânsito, te responder mal, dizer algo injusto, e no instante exato em que a sua raiva subir, antes de devolver, faz uma pausa de um C, e pergunta para você mesmo, eu vou entregar a minha paz por isso, isso aqui vale o meu coração, você não precisa abençoar ninguém como a seta fez, só precisa, por um C, não passar adiante o veneno que te ofereceram, porque o chicote dos outros sempre vai existir, mas o lugar onde mora a sua paciência, esse, só você tem a chave, e ninguém tira de você o que você decide não entregar.