Imagina que você passou a vida inteira sendo honesto. Nunca pegou o que não era seu, nunca mentiu para levar vantagem. E aí, um dia, alguém que você respeita demais começa a te tratar diferente, mais frio, mais distante. Você não entende o porquê e começa a se perguntar. Será que a minha honestidade vale alguma coisa? Será que ser bom me trouxe alguma coisa de verdade, ou eu só fui um bobo à vida toda? Essa dúvida, esse aperto no peito, é o coração desse conto. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no caminho, vida após vida, se tornando aquele que um dia acordaria de vez.
Nessas histórias ele aparece às vezes como bicho, às vezes como gente, e nessa aqui ele aparece como um sacerdote, um conselheiro de confiança na corte de um rei, um homem cuja maior riqueza era uma só, a virtude, a conduta limpa, aquilo que impalia a gente chama de silla, ele era o brâmane mais querido do rei, não por causa do dinheiro, nem por causa de bajulação. Era querido porque era íntegro, onde os outros cortavam caminho ele andava reto, e o rei, naturalmente o tratava com carinho especial, dava a ele mais atenção, mais presentes, mais lugar à mesa do que aos outros conselheiros, só que aí o nosso sábio começou a sentir um incômodo.
Repara que coisa interessante, ele pensou assim, o rei me trata bem, mas será que ele gosta de mim por causa da minha virtude, ou só porque eu sou simpático, porque eu venho de boa família, porque ele se acostumou comigo, eu preciso saber, eu preciso por a minha própria virtude à prova, e foi o que ele fez. No dia seguinte ao sair do tesouro real, ele pegou uma única moeda da mesa do guardião do tesouro, pegou na frente de todo mundo devagar, sem esconder, o guardião viu, mas ficou tão respeitoso, que não disse nada. No outro dia, ele pegou duas moedas, o guardião de novo ficou calado, no terceiro dia, ele pegou um punhado de moedas de ouro, aí não dava mais.
O guardião gritou, ladrão, ladrão roubando o tesouro do rei, e os guardas vieram correndo, agarraram o nosso sábio, e o arrastaram diante do trono, dizendo, majestade, esse homem, justo esse, está roubando as moedas, e o rei, decepcionado, magoado, perguntou, Bramane, é verdade, por quê? Por que você fez isso? E aí vem a parte bonita, o sábio não se defendeu com desculpas. Ele disse, majestade, eu fiz isso de propósito, eu precisava saber uma coisa, eu queria descobrir o que vale mais neste mundo, nascer em boa família, ter boa aparência, ser simpático, ou ter virtude. O senhor me tratava do carinho, eu precisava saber se era pela minha conduta, ou por outra coisa qualquer.
Agora eu sei, bastaram três punhados de moedas para eu, que eram o mais querido da corte, viraram um ladrão amarrado diante do senhor. Veja como a posição, a beleza, o sangue nobre, nada disso me protegeu, só uma coisa, quando se perde, derruba um homem por inteiro, a virtude, ela é o tesouro de verdade, é a única que importa. E o sábio, ali mesmo, fez um pedido ao rei, disse que tinha visto com os próprios olhos como a vida do mundo é frágil, como tudo que a gente acumula pode ruir num instante, e que dali em diante ele queria abandonar a corte e viver a vida de quem busca o despertar, simples, no silêncio da floresta.
O rei, como ouvido, deu permissão, e o nosso bodissata partiu, levando consigo a única riqueza que ninguém pode roubar. Agora, repara no que esse conto está bonito, porque ele fala direto com a gente hoje. A gente vive num mundo que mede o valor de uma pessoa por quase tudo, menos pela virtude. A gente conta seguidores, conta o salário, o carro, o tamanho da casa. A gente repara em quem é bonito, em quem fala bonito, em quem tem o sobrenome certo, em quem está no lugar certo. E, no meio de tudo isso, a coisa que o sábio descobriu será que, de fato, sustenta uma pessoa, a conduta limpa, o sila, virou quase invisível.
Ninguém posta a própria honestidade. Não dá likes, não rende elogio na reunião. E aí acontece com a gente uma versão silenciosa daquela dúvida do Bramani. A gente é honesto e, às vezes, se sente trouxa por isso. Ve o atalho que o outro pegou da certo. Ve a mentirinha render e pensa pra que tanto cuidado? A tentação não é roubar três punhados de ouro. É bem menor e, por isso, bem mais perigosa. É a nota fiscal que a gente não pede. É o troco a mais que a gente embossa. É a meia verdade que faz a gente parecer melhor do que é. Cada uma parece pequena. Mas o conto avisa. Bastam três punhados pra derrubar um homem inteiro.
O que o sábio entendeu e que vale ouro pra gente é que a virtude não é um enfeite que você usa pra agradar os outros. Ela não está ali pra render carinho do rei. Ela está pro próprio chão. É a única coisa que continua de pé quando tudo mais, o cargo, a beleza, a simpatia, a família, vai embora. E o melhor é a única riqueza que nenhum guarda pode arrancar de você e arrastar até o trono. Aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje, em algum momento, vai aparecer um pequeno punhado de moedas na sua frente. Vai ser miúdo do tamanho de um troco a mais, de uma resposta muito torta, de um crédito que não é seu, mas que ninguém vai conferir.
Quando isso chegar, faz uma pausa de uns se se pergunta a pergunta do sábio. Se isso viesse à tona, na frente de todo mundo, eu continuaria de pé e escolhe a sua virtude. Mesmo que ninguém esteja olhando. Mesmo que ninguém vá te dar um like por isso. Porque esse, e só esse, é o tesouro que continua sendo seu amanhã de [MÚSICA DE FUNDO]