Imagina que você está livre, escapou da armadilha, a floresta inteira aberta na sua frente, é só correr, e você decide voltar e colocar o pescoço de novo embaixo do laço. Por quê? Por causa de uma promessa. Por causa de quem ficou pra trás. Esse conto fala de um servo que fez exatamente isso. E a pergunta que ele deixa é simples e desconfortável. O que você devolveria mesmo que custasse caro, só pra honrar quem cuidou de você. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.
Nessas histórias o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece de muitas formas, às vezes como pessoa, às vezes como bicho. E nessa aqui ele nasce servo, um servo chamado Nandia. Conta-se que, num tempo antigo, num reino chamado Kossala, o Bodhisatta nasceu como um servo de uma beleza incomum, pelagem dourada, olhos calmos, um porte que fazia até os caçadores pararem pra olhar. Os pais dele eram servos já velhos, e quando ficaram velhos demais pra procurar comida sozinhos, Nandia assumiu o cuidado dos dois. Toda manhã ele ia buscar capim macio, ervas tenras, as folhas mais novas, e levava pra mãe e pro pai.
Toda noite ele os guardava no esconderijo mais seguro do bosque. Era sim, dia após dia, sem reclamar, sem cobrar nada de volta. Só o cuidado de um filho por quem o trouxe ao mundo. Acontece que naquele tempo o rei de Kossala adorava caçar. E caçava de um jeito tirano, convocava os camponeses, tirava o povo do trabalho, e obrigava aldeias inteiras a baterem o mato pra empurrar os bichos na direção das flechas dele. Os campos ficavam sem plantar, a colheita se perdia, o povo passava fome. Até que um dia os audiões se juntaram e tiveram uma ideia desesperada. Disseram entre si, vamos cercar um pedaço da floresta com uma palissada.
Prender lá dentro muitos servos, e entregar de presente pro rei. Aí ele caça ali, sozinho, e nos deixa em paz pra cuidar da nossa terra. E foi o que fizeram. Cercaram uma área enorme, tocaram os servos pra dentro, e dentro daquele cercado estavam Nandia e os pais dele. O rei passou então a ir lá de tempos em tempos, sozinho ou mandando um caçador. E abatia um servo por dia pra sua mesa. Repara no que Nandia fez. Os servos ali dentro tinham combinado um rodízio, uma espécie de sorteio triste. Cada dia um deles, na ordem, ia até o lugar onde o arqueiro esperava e se deixava abater pra que nenhum outro fosse ferido na correria e na flechada à toa.
Era um pacto de morte, mas era também um pacto pra que a morte fosse só uma por dia e não um massacre cego. Quando chegou a vez do pai de Nandia, ele já estava velho e fraco. E Nandia disse não, hoje eu vou no seu lugar. E foi. Ele eminhou até o claro do bosque onde o caçador real estava de arco pronto e parou ali de pé, sem fugir, oferecendo o próprio corpo. O caçador esticou a corda, mirou, mas conta-se, alguma coisa segurou a mão dele. Talvez a serenidade do bicho, talvez aquele olhar que não tinha medo nem ódio, só uma paz que ele nunca tinha visto num animal aquado. O homem baixou o arco, não conseguiu atirar, mas a história não acaba aí e é aqui que o conto fica grande.
Porque em outra versão dessa vida, é o próprio rei quem vai à floresta, e Nandia, já reconhecido como o servo dourado, é poupado e até criado perto do palácio. Só que o servo nunca esquece os pais que ficaram no bosque velhos, sem ninguém pra buscar comida. E então ele faz o impensável, tendo a chance de ficar a salvo, ele pede pra voltar, pede licença ao rei, atravessa de novo a floresta perigosa, volta pro cercado, pro lugar do laço, volta perto dos pais, trocou a segurança pela responsabilidade, voltou a colocar o pescoço debaixo do risco, porque havia dois velhos servos que dependiam dele.
E o caçador, e depois o rei, vendo aquilo, vendo um animal que tinha liberdade na pata, e escolheu o dever, ficaram tão tocados que pouparam Nandia, pouparam os pais dele. E mais, o rei proibiu a caça naquela floresta inteira, concedeu segurança a todos os servos, a todos os bichos, a todas as aves, por causa de um único servo que se recusou a salvar só a si mesmo. Agora, repara no que esse conto está dizendo. No centro dele está uma virtude que o budismo chama, com todo o respeito, de uma das mais simples e mais esquecidas. A gratidão, o reconhecimento de quem nos sustentou. Em pale tem uma palavra bonita pra isso, catanyuta.
Saber o que se recebeu, e junto dela vem o cuidado com pai e mãe, que nas escrituras é citado quase como um lugar sagrado, um campo onde a bondade da gente cresce. Nandia não cuidou dos pais por obrigação fria nem por medo de julgamento, cuidou porque enxergava, com clareza, tudo o que tinha recebido. E quando enxergou isso de verdade, nenhuma fuga, nenhuma vida fácil perto do palácio valeu mais do que voltar. E olha como isso bate forte hoje. A gente vive num tempo que celebra exatamente o contrário. Salve-se, otimise a sua vida, corte o que te pesa, siga em frente, não olhe pra trás.
A gente foi ensinado a tratar o cuidado com os mais velhos como um fardo, uma coisa a terceirizar, um peso na agenda. Mandamos uma mensagem rápida e achamos que cumprimos, e enquanto isso quem nos buscou capim a vida inteira, em sentido figurado, quem acordou de madrugada por nós, vai ficando ali no bosque, esperando alguém voltar. O servo Nandia, livre, voltou, e a gente com tudo nas mãos, às vezes nem liga. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que cuidou de você quando você não podia cuidar de si mesmo. Um pai, uma mãe, uma avó, quem foi? Hoje mesmo, sem terceirizar, faça por essa pessoa uma coisa concreta e presente.
Ligue e fique no telefone sem pressa. Vai visitar, leve uma refeição, resolva aquilo que ela não consegue mais resolver sozinha. Não como tarefa, mas como quem devolve um pouco do capim que recebeu, porque a gratidão de verdade não é um sentimento bonito guardado por dentro. É voltar pro bosque, de propósito, por quem ficou esperando.