A linguagem dos animais e a esposa traiçoeira

Budismo · Temporada 14 · Episódio 11 de 20 — em ordem cronológica

Há segredos que, se contados, matam. E se a cobrança para revelá-los viesse de quem você mais ama?

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Transcrição

Imagina que te dão um poder raríssimo. Você passa a entender o que cada bicho fala. O canto do pássaro, o rosnado do cachorro, o zumbido do inseto, tudo vira a linguagem clara pra você, mas vem junto uma condição absoluta. Se você contar pra alguém de onde veio esse dom, você morre na mesma hora. Agora me diz, quanto tempo você guentaria guardar esse segredo se a pessoa que dorme do seu lado ficasse, todo dia, te pressionando pra falar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no caminho de se tornar Buda, vivendo como Bodhisatta, hora em forma de gente, hora em forma de bicho, sempre aprendendo alguma virtude no caminho.

Nesse conto, o Bodhisatta aparece lá no alto, como saca, o Senhor dos devas, aquele que observa o mundo dos homens com olhos atentos. E embaixo, na terra, havia um rei jovem, esse rei, ainda menino, tinha sido criado de um jeito especial. Quando bebê, ele ficou órfão e foi amamentado, dizem, por uma cabra, cresceu no meio dos animais antes de subir ao trono. E talvez por isso, talvez por mérito de outras vidas, ele guardava no peito uma curiosidade boa pelo mundo dos bichos. Pois bem, um dia esse rei estava no seu jardim, perto de um lago, quando viu uma cena pequena, dessas que a gente normalmente nem repara.

Uma cobra resvalou pra dentro da água e começou a se afogar, ali no meio das correntes. O rei de coração mole mandou que a salvassem. E a cobra, que não era uma cobra qualquer, era uma serpente naga, dessas criaturas das águas profundas, ficou indívida com ele. Quando se viu salva, a naga falou, rei, você me deu a vida de volta, eu não posso te pagar com ouro, porque ouro você já tende mais. Mas eu te dou uma coisa que nenhum tesouro compra, eu te dou o entendimento de todos os sons dos seres vivos. Você vai ouvir a fala das formigas, dos corvos, dos cães, de tudo que respira. Só que escuta bem, esse dom carrega um lacre, no dia em que você revelar a alguém como recebeu, no mesmo instante você cai morto.

Guarde isso como se guarda a própria respiração. O rei aceitou, agradecido, e voltou pro palácio carregando esse segredo dentro do peito. E repara, a vida dele mudou de cor, ele ouvia o mundo inteiro conversando, sentava pra comer e entendia o que as formigas diziam sobre a migalha que tinha caído, andava pelos jardins e captava a fofoca dos passarinhos. Era uma alegria silenciosa, uma intimidade com a criação que ninguém ao redor se que era imaginava. Mas todo segredo grande deixa um rastro. A rainha, a esposa do rei, começou a reparar nessas coisas. O marido ria sozinho a mesa, sorria de nada, olhando uma formiga, ouvindo um corvo.

E mulher nenhuma gosta de ver o marido rindo de uma graça que ela não pode dividir. Então ela começou a perguntar. De que você está rindo? O que foi que te fez sorrir agora? E o rei desconversava, mudava de assunto, porque ele sabia o preço da verdade, mas ela não largou o osso. Dia após dia, ela cobrava, apertava, fazia daquilo uma ferida. Se você me ama de verdade, você me conta. O que um marido esconde da própria esposa? Eu quero saber qual é esse seu segredo e quero saber agora. E foi subindo o tom, foi virando exigência, foi virando chantagem do coração. Ela disse no fim que sem essa verdade não conseguia mais viver.

E aqui está o nó do conto. Veja a armadilha em que o rei caiu, de um lado, a vida dele, do outro a paz dentro de casa, e o amor de uma mulher que ele queria agradar. A esposa o pressionava justamente naquilo que ele não podia entregar sem morrer. E ele, fraco diante do desejo de ser amado, chegou perto de ceder. Quase abriu a boca, quase trocou a própria vida por uns instantes de paz conjugal. Ele já tinha até decidido morrer, contar tudo e morrer, só para acabar com aquela cobrança sem fim. Foi nessa hora que saca, o Bodhisatta, olhando da sua morada celeste, viu o tamanho da besteira que o rei ia cometer, e decidiu intervir, mas de um jeito budista, de um jeito que ensina sem dar sermão.

Ele desceu disfarçado, e tomou a forma de um Bodhi, e de uma cabra, ali perto do palácio, num lugar onde o rei pudesse ouvir, e o rei, com seu dom, escutou os dois animais conversando. A cabra pediu ao Bodhi uma coisa qualquer, um capricho, um agrado difícil de conseguir, e o Bodhi respondeu sem rodeio. "Você está me pedindo uma coisa que vai me custar caro demais. Eu te quero bem, mas eu não vou me destruir para te satisfazer um desejo. Que tipo de macho seria eu, que tem juízo, se entregasse a própria vida só porque a fêmea ficou insistindo? Há limites no que o amor pode pedir. O rei ouviu aquilo e foi como acordar de um sonho ruim.

Um Bodhi comum na cabeça dele tinha mais firmeza do que ele, o rei, dono de palácios e exércitos. O bicho sabia dizer não a um capricho que custaria a vida, e ele, o homem, estava prestes a entregar a existência inteira para calar uma cobrança, caiu a ficha, o rei recuperou o juízo, parou de pensar em morrer, e foi falar com a esposa com uma firmeza nova, gentil mas inabalável. Esse segredo ele não entregaria, e o assunto estava encerrado. E, conta a tradição, a partir dali a casa encontrou de novo o seu sossego. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais atual do que parece.

A virtude no centro aqui é uma só. E em Palí a gente chama de Aditana, a firme determinação, a capacidade de segurar a própria palavra e o próprio limite mesmo quando o afeto, ou o medo de perder o afeto, empurra na direção contrária. E olha que coisa, o conto não está dizendo para você ser frio com quem ama, está dizendo que amor de verdade não exige que você se distrua, porque no nosso tempo a gente vive uma versão moderna dessa pressão. A gente é cobrado o tempo todo a se expor inteiro a não ter limite nenhum. Conta tudo, mostra tudo, responde tudo, esteja disponível sempre.

Quem guarda um silêncio é acusado de estar escondendo, de não amar o suficiente, e a gente, com medo de desagradar, vai cedendo pedaço por pedaço, até entregar coisas que eram a nossa própria saúde, o nosso descanso, a nossa integridade. A gente confunde amor com ausência total de fronteira, e aí a doce esgota some dentro do que os outros pedem. O rei quase morreu de tanto querer agradar. Quantos de nós estão morrendo um pouquinho todo dia pela mesma razão? Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa cobrança que está te apertando agora. Alguém querendo de você algo que vai te custar mais do que você tem para dar.

Seu tempo, seu sono, sua paz, um pedaço de você. E antes de ceder para encerrar o desconforto, faz a pergunta do Bodi Sábio. Esse pedido é amor me querendo bem, ou é só um capricho que vai me custar a vida. Se for a segunda você tem o direito, com gentileza e sem culpa, de dizer não, guardar um limite não é faltar com o amor. As vezes é a forma mais honesta de continuar inteiro para quem você ama.