Noé e seus filhos — as nações do mundo · Gênesis 9:18–10:32

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 9 de 37 — em ordem cronológica

Noé, o homem que andou com Deus, terminou sua saga bêbado e exposto. A reação dos seus filhos revela uma verdade incômoda sobre todos nós.

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Transcrição

O homem que salvou a humanidade do dilúvio termina a história embriagado, caído numa tenda. E o que os filhos dele fazem nesse momento muda tudo entre eles. A Bíblia conta uma cena estranha, meio constrangedora, logo depois do final feliz do arco, Iris, e nela está escondida uma das maiores viradas de toda essa parte do livro. Deixa eu te contar. Lembra do Noé, o homem que andou com Deus, que construiu a arca, que aguentou os meses de água, que viu o arco, Iris no céu, um herói, o homem mais justo da sua época? Pois é. Mesmo esse homem tem uma história que não é bonita, e o texto não esconde.

Depois do dilúvio, Noé vira lavrador. Ele planta uma vinha, um pé de uva, colhe as uvas, faz vinho, e aí, um dia, ele bebe demais, fica bêbado, e acaba caído dentro da tenda dele, sem roupa, dormindo, exposto. Pensa nisso, o homem que tinha sido perfeito na hora mais difícil, ali, vulnerável, num momento que ninguém ia querer que vissem. Acontece com todo mundo, até com Noé, e é aqui que os filhos dele entram na história. Era um três, sem cã e jafé, e o que cada um faz nesse momento revela o coração de cada um. Um dos filhos, cã, entra na tenda, vê o pai naquela situação caído, exposto, vulnerável, e, em vez de cobrir, em vez de proteger, ele sai e conta para os irmãos.

Vai falar do vexame do pai, expõe a fraqueza do pai para os outros, mas os outros dois irmãos, cã e jafé, fazem o contrário. O texto descreve isso com um cuidado bonito. Eles pegam uma capa, põem sobre os ombros dos dois, e entram na tenda andando de costas de propósito, para não ver o pai daquele jeito, e cobrem ele sem olhar. Protegem a dignidade do pai sem encarar a fraqueza dele. Olha a diferença. Um filho olhou para a fraqueza do pai e foi contar para os outros. Os outros dois cobriram a fraqueza sem nem olhar. É a mesma cena, a mesma fraqueza de pai. Mais três corações diferentes diante dela.

Quando Noé acorda e descobre o que tinha acontecido, ele fala sobre os filhos. Abençoe a cã e jafé, os que cobriram, e pronuncia uma maldição sobre a descendência de cã sobre o filho de cã chamado Canaã. E aqui, eu preciso parar num ponto importante, porque essa passagem já foi muito mal usada na história. Por séculos, gente usou essas palavras de Noé para justificar coisas horríveis, para dizer que certos povos nasceram para servir, para justificar escravidão, para justificar racismo. Isso é uma distorção, uma deturpação do texto. O texto não está falando de cor de pele, não está falando de raça.

Está falando de um momento específico entre um pai e três filhos, e das consequências de um ato de desrespeito. Quando alguém usa essa passagem para diminuir outro ser humano, está traindo o que a história diz. Guarda isso. É importante. E aí o capítulo faz uma coisa parecida com aquele capítulo 5 dos 900 anos. Ele vira uma lista. Os três filhos de Noé sem, cã e jafé têm filhos, e os filhos têm filhos, e de cada um vai saindo um povo, uma nação, uma língua. O texto chama isso de Atáboa das Nações. É como uma árvore genealógica gigante de toda a humanidade. E a ideia por trás dessa lista é linda quando você entende o que ela está dizendo.

Lembra que o mundo tinha sido reiniciado. Sobraram oito pessoas, os três filhos de Noé e as esposas. E o texto agora está dizendo. Foi a partir dessas três famílias que todos os povos da Terra se espalharam. De um lado, saem os povos de uma região. De outro, os de outra. Cada nome na lista vira um lugar no mapa, um povo, uma cultura. O texto vai nomeando. Deste vieram tais povos, daquele vieram tais outros. Cada um na sua terra, cada um com a sua língua, dentro do seu clã. E o capítulo fecha com uma frase que resume tudo. Diz. Essas foram as famílias dos filhos de Noé, segundo as suas gerações, nas suas nações.

E foi a partir delas que os povos se espalharam pela terra depois do dilúvio. Pensa no que isso está dizendo. Está dizendo que toda a diversidade do mundo, todos os povos, todas as línguas, todas as cores, todas as culturas que existem, vem de uma raiz só, de uma família. Que não importa de onde você seja, de que canto do mapa, que língua você fale. Lá no fundo da árvore, todo mundo é parente. A lista parece chata, cheia de nomes difíceis. Mas a mensagem dela é uma das mais bonitas da Bíblia. Somos todos da mesma família. Todos galhos da mesma árvore. Eu fico pensando muito nesse capítulo, por duas coisas.

A primeira é o jeito como a história trata a fraqueza do Noé. Ela não apaga. Não finge que o herói era perfeito. Mostra ele caído, vulnerável, num momento ruim. E aí, em vez de focar na queda dele, ela vira a câmera para os filhos. E pergunta sem perguntar o que você faz quando vê a fraqueza de alguém. Porque é fácil fazer como cã ver alguém num momento ruim e ir contar, espalhar, comentar. Você viu o que Fulano fez? A fraqueza dos outros é a fofoca mais fácil do mundo, mas os outros dois fizeram outra coisa. Pegaram a capa e cobriram, nem olharam. Protegeram a dignidade de alguém num momento em que essa pessoa não tinha como se proteger sozinha.

E me toca que a história trate isso como uma escolha grande. Que ela diga, o jeito como você lida com a fraqueza dos outros revela quem você é. Mais até do que o jeito como você lida com a força deles. E a segunda coisa é a árvore das nações. Essa ideia de que todo mundo no fim é aparente. Num mundo que vive separando as pessoas em grupos esses contra aqueles, os de cá contra os de lá, tem uma história lá no comecinho da Bíblia dizendo o contrário. Dizendo que a gente saiu todo do mesmo tronco, que o estranho do outro lado do mundo é lá longe da sua família. Aqui vai uma coisa para hoje.

Pensa numa pessoa que você viu, recentemente, num momento de fraqueza. Alguém que escorregou, que falou demais, que fez uma besteira, que estava mal. E pensa no que você fez com isso se você cobriu ou se você foi do tipo que contou para os outros. E hoje, só por hoje, quando você ficar sabendo de uma fraqueza de alguém, um deslize, um vexame, uma queda, escolhe ser o filho que pega a capa. Não comenta, não espalha, cobre, em silêncio. Porque um dia vai ser você ali, caído na tenda. E o que você vai querer não é alguém que conte, é alguém que cubra. Noé foi herói no dilúvio e frágil na própria tenda.

Os dois noés são reais. E o que ficou da história não foi a queda dele, foi a escolha dos filhos diante dela.