Imagina o mundo inteiro falando uma língua só, todo mundo se entendendo, sem tradução, sem mal-entendido, sem aquela sensação de estar falando e ninguém captar. Parece o sonho perfeito, né? Pois é exatamente daí que vem uma das histórias mais estranhas do começo da Bíblia, e ela termina com tudo desmoronando. Deixa eu te contar, depois do dilúvio, o mundo recomeçou. Os filhos de Noé tiveram filhos, que tiveram filhos, e as pessoas foram se espalhando de novo pela Terra, e o texto faz questão de dizer uma coisa, logo no começo. Diz que a Terra inteira tinha uma só língua e usava as mesmas palavras.
Todo mundo se entendia. Imagina o poder disso. Quando as pessoas se entendem, elas conseguem fazer juntas o que sozinha seria impossível. E foi isso que elas fizeram. Andando pelo mundo, esse povo chegou numa planice, uma terra plana, larga, numa região chamada Sinar, e decidiram parar ali, decidiram morar ali, e aí veio a ideia. Eles disseram uns aos outros, "vamos fazer tijolos, vamos cozinhar bem esses tijolos no fogo até ficarem duros como pedra, repara que detalhe interessante, ali naquela região não tinha muita pedra boa para construção, então eles inventaram um jeito. Fizeram o tijolo de barro e cozinharam no fogo, e usaram Betume no lugar de massa para grudar tudo, Betume é uma coisa preta e grudenta, parecida com piche que sai da terra naquela região, ou seja, eles eram espertos, eram criativos, tinham tecnologia, e com essa tecnologia toda na mão, eles disseram uma frase, uma frase que é o coração de toda essa história.
Eles disseram, "vamos construir para nós uma cidade, e uma torre, uma torre tão alta que o topo dela chegue até o céu, e completaram, vamos fazer um nome para nós mesmos, para não sermos espalhados sobre a face de toda a terra, para nessas duas frases um segundo. Primeiro, vamos fazer um nome para nós mesmos, eles não queriam construir aquilo para Deus, não era um presente, não era gratidão, era para eles, para ficarem famosos, para serem grandes, para todo mundo olhar e dizer, olha o que eles conseguiram, e segundo, para não sermos espalhados, lembra que Deus lá atrás tinha falado para as pessoas se espalharem e enxerem a terra, cuidarem dela toda, pois eles queriam o contrário, queriam ficar todos no mesmo lugar, agarrados, fechados num só ponto, fazendo um monumento para si mesmos, então a torre não era só uma torre, era um jeito de dizer, a gente não precisa de mais ninguém, a gente faz sozinho, a gente chega no céu com as nossas próprias mãos, e aí o texto faz uma coisa linda, quase com humor, eles estavam construindo a torre mais alta que conseguiam imaginar, uma torre para chegar até o céu, e o texto diz que o Senhor desceu para ver a cidade, e a torre que os filhos dos homens estavam construindo, desceu, está vendo a ironia, eles achavam que estavam subindo até o céu, e aquilo que para eles era altíssimo, lá de cima era tão pequeno, que Deus precisou descer para conseguir enxergar, tudo o que parece gigante para a gente às vezes, visto de cima, é minúsculo, e Deus olhou aquilo e disse uma coisa, disse, olha, eles são um só povo, e todos têm uma só língua, e isso é só o começo do que vão fazer, agora nada do que planejarem fazer vai ser impossível para eles, repara, Deus não estava com medo deles, não é que a torre ia ameaçar o céu de verdade, o que estava acontecendo era mais fundo, era um povo inteiro usando toda a sua força, toda a sua união, toda a sua inteligência virado para o lado errado, não para cuidar uns dos outros, não para cuidar da terra, mas para inflar a si mesmo, para virar Deus de si mesmo, e Deus interrompe, ele diz, vamos descer, e vamos confundir ali a língua deles para que um não entenda mais a fala do outro, e foi o que aconteceu, de um momento para o outro, as pessoas pararam de se entender, um pedia o tijolo, o outro ouvia outra coisa, um dava uma ordem, o outro não fazia ideia do que era, a obra inteira travou, não dá para construir nada quando ninguém entende ninguém, e aí o texto diz que o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra, exatamente aquilo que eles tanto queriam evitar, eles construíram a torre para não se espalhar, e foi por causa da torre que se espalharam, e pararam de edificar a cidade, e aquele lugar ganhou um nome, Babel, e ali o Senhor confundiu a língua de toda a terra, e dali ele espalhou as pessoas por toda a parte, Babel, a palavra ficou parecida com uma outra palavra daquela língua que quer dizer confusão, misturar tudo, e é aqui que eu paro para pensar, porque é fácil ler essa história e achar que Deus ficou bravo e atrapalhou todo mundo por implicância, mas não é isso, o problema nunca foi a torre, tijolo não é pecado, construir não é pecado, ser inteligente, criativo, unido, nada disso é errado, o problema foi o motivo, foi o vamos fazer um nome para nós mesmos, foi querer subir até o topo só para provar que não precisava de mais ninguém, nem de Deus, nem do resto do mundo, e tem uma coisa quase assustadora nessa história, quando as pessoas juntam toda a força delas só para engrandecer a si mesmas, a coisa não termina em glória, termina em confusão, termina com gente que não se entende mais, cada um puxando para o seu lado a obra parada no meio, eu vejo isso até hoje, em time que se junta só pela vaidade de um, em família onde cada um quer aparecer, a gente tem todas as ferramentas, toda a tecnologia, e mesmo assim, às vezes ninguém se entende mais, e talvez a história esteja sussurrando uma coisa simples, que a grandeza de verdade não é a que a gente constrói para cima, para ser vista, é a que a gente constrói para o lado, para os outros, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que você anda fazendo, pode ser no trabalho, num projeto, até num post que você ia publicar, e faz uma pergunta honesta, isso é para fazer um nome para mim, ou é para servir para ajudar, para construir junto, não precisa parar a obra, só repara no motivo, porque a história de Babel não é sobre tijolos, é sobre para quem a gente constrói a vida, e talvez quando o motivo é só a gente mesmo, lá no alto, sozinhos, a gente descubra que parou de entender as pessoas em volta faz tempo.