Davi foge de Saul — os anos no deserto · 1 Samuel 21:1–26:25

A Biblia · Temporada 5 · Episódio 13 de 14 — em ordem cronológica

Seu pior inimigo está indefeso à sua frente, a arma em suas mãos. Por que, em vez de vingança, você escolheria ir embora?

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

Imagina que você tem na sua frente dormindo a pessoa que mais quer te matar e tá ali em defesa. Você pode acabar com tudo num segundo, ninguém vai saber. E todo o seu sofrimento termina agora e você tem a arma na mão. Mas você não faz nada, você guarda a arma e vai embora. Por quê? Por que alguém faria isso? É disso que eu quero te contar hoje. Lembra que o Davi teve que fugir do palácio. O rei Saú, num ciúme que virou loucura, queria matar ele. E o Davi, que era um herói, que tinha derrubado o gigante, virou um fugitivo. Começa aí uma das fases mais duras da vida do Davi. Anos correndo, anos se escondendo, vivendo no deserto, em cavernas, no meio do mato.

Sempre com medo, sempre olhando para trás. Vamos por partes. Primeiro o Davi fugiu sozinho sem nada. Chegou faminto numa cidade onde morava um sacerdote, um homem que cuidava das coisas de Deus. E o Davi pediu comida. O único pão que tinha ali era o pão sagrado, que normalmente só os sacerdotes podiam comer. Mas o homem deu para o Davi porque ele estava com fome. A vida de uma pessoa valia mais que a regra. E ali o Davi pegou também uma espada. E não era uma espada qualquer. Era a espada do Golias, o gigante que ele tinha derrubado. E estava guardada ali. O Davi pegou de volta a arma do gigante que ele venceu, mas o Davi continuava sozinho e em perigo.

Então ele teve uma ideia desesperada, foi se esconder bem no meio dos Filisteus, os inimigos antigos. Achou que o rei Saul nunca ia procurar ele lá, só que deu errado. Os Filisteus reconheceram ele. Era o famoso Davi, o que tinha matado o gigante deles. E o Davi ficou apavorado. E aí ele fez uma coisa esperta, quase cômica. Ele fingiu de louco, começou a babar, a arranhar as portas, a se fazer de doido. E o rei dos Filisteus disse, tira esse louco daqui, eu já tenho loucos demais. E deixou ele ir. O Davi escapou se fingindo de louco. Quando você não tem força, às vezes a esperteza é a única saída.

Depois disso, o Davi se escondeu numa caverna grande chamada Adulão. E aconteceu uma coisa bonita. Começaram a aparecer outras pessoas. Gente endividada, gente triste, gente que também estava em apuros na vida. Todos os que não tinham pra onde ir foram se juntando ao Davi. Virou um bando, uns 400 homens, depois 600. O Davi, o fugitivo, virou líder de um grupo de gente quebrada e ele cuidava deles. E enquanto isso, o rei Saúl não parava de caçar o Davi. Ele juntava soldados milhares deles e saía pelo deserto atrás do menino. Era uma perseguição que não acabava. E agora chega a parte mais importante, a parte que diz quem o Davi era de verdade.

Aconteceu duas vezes. O Saúl, sem saber, ficou totalmente nas mãos do Davi. E o que o Davi fez nessas duas vezes é o coração da história. A primeira vez foi numa caverna. O Davi e os homens dele estavam escondidos lá no fundo de uma caverna grande, no escuro. E o rei Saúl, que estava caçando o Davi, entrou nessa mesma caverna, sozinho, pra fazer as necessidades dele, pra ir ao banheiro, digamos assim. Pensa na cena, o Saúl entra na caverna sem saber que o Davi tá lá no fundo, no escuro, vendo tudo. O homem que quer matar o Davi tá ali, sozinho, de costas, sem nenhuma proteção. E os homens do Davi coxixaram pra ele.

É agora. Deus entregou o seu inimigo na sua mão. Mata ele e acaba com isso. O Davi se levantou bem de mansinho. Chegou perto do Saúl, no escuro, e pegou a espada. E você acha que ele matou o Saúl? Não. O Davi só cortou um pedacinho da capa do Saúl, de fininho, sem o rei perceber. E voltou pro escuro, e mesmo só por ter cortado a capa, o coração do Davi ficou pesado. Ele disse aos homens, eu não posso fazer mal a esse homem. Ele é o rei que Deus escolheu. Não cabe a mim levantar a mão contra ele. Então o Saúl saiu da caverna, sem saber de nada. E quando ele já tava longe, lá fora, o Davi saiu e gritou pra ele.

Imagina o susto do Saúl, o Davi gritando atrás dele. E o Davi levantou na mão aquele pedaço da capa. E disse, ó rei, olha isso, olha o que eu tenho na mão. Eu podia ter te matado lá dentro. Você tava totalmente na minha mão. Os meus homens mandaram eu te matar. Mas eu não fiz. Olha, eu só cortei a sua capa. Eu não quero o seu mal. Por que você fica me caçando? E o Saúl, ouvindo aquilo, chorou. Ele disse, você é melhor do que eu. Eu te fiz o mal, e você me pagou com o bem. E foi embora. Por um tempo, paz. Mas a loucura do Saúl voltou de novo. E ele saiu caçar o Davi outra vez.

E aconteceu a segunda vez. E essa é ainda mais forte. Era de noite, o exército do Saúl tava acampado, dormindo. Todos dormindo. E o Davi e um companheiro desceram, no escuro, no silêncio. E entraram no acampamento inimigo. Eles foram andando bem no meio dos soldados que dormiam. Até chegar bem no centro. E lá, dormindo, estava o próprio rei Saúl. Com a lança dele cravada no chão, ali do lado da cabeça. De novo, o Saúl totalmente indefeso. Dormindo. E o Davi bem em cima dele. E o companheiro do Davi cochichou. Deixa-o acabar com ele. Uma lançada só. E pronto. Nem precisa de duas.

E de novo, o Davi disse não. Ele disse não encosta nele. Quem sou eu pra matar o rei que Deus escolheu? Se for pra ele morrer, que seja na hora de Deus, não pela minha mão. Mas o Davi quis deixar uma prova. Então ele pegou só duas coisas. A lança do Saúl e o jarro de água que estava do lado da cabeça do rei. E saiu de mansinho, sem ninguém acordar. E foi pro alto de um monte bem longe em segurança. E de lá gritou de novo pro acampamento. Acordou todo mundo e mostrou. Ó rei, cadê a sua lança? Cadê o seu jarro de água? Estão aqui comigo. Eu entrei no meio do seu exército essa noite.

Eu estava do seu lado enquanto você dormia. Eu podia ter te matado. Mas eu não levantei a mão contra você. Olha como a sua vida foi preciosa pra mim hoje. E de novo o Saúl se quebrou. Ele disse, eu errei. Eu fui um tolo. Volta, meu filho Davi. Eu não vou mais te fazer mal. E os dois se separaram. O Davi seguiu o seu caminho. E o Saúl voltou pra casa. E é aqui que eu paro pra pensar. Duas vezes. Duas vezes o Davi teve o inimigo na mão. O homem que destruiu a vida dele, que tirou ele de casa, que o fez viver em cavernas com medo por anos. Duas vezes esse homem ficou em defeso na frente do Davi.

E duas vezes o Davi não fez nada. E não foi porque o Davi era fraco. Ele era guerreiro. Tinha matado o gigante. Tinha espada na mão. Era fácil. Ninguém ia condenar ele. Todo mundo ao redor mandou ele fazer. Mas o Davi não quis. E o motivo dele é a parte bonita. Ele disse que não cabia ele fazer justiça com as próprias mãos. Que aquilo era com Deus, não com ele. Ele preferiu esperar o tempo certo do que pegar o atalho da vingança. E acho que isso fala muito com a gente. Porque todo mundo, um ade ou outra, tem o seu Saúl. Alguém que te machucou. Alguém que foi injusto com você.

E todo mundo já teve aquele momento em que dá pra revidar. Em que a pessoa que te feriu fica vulnerável. E você podia dar o troco. E é a coisa mais tentadora do mundo. A vingança parece doce. Parece justa. Todo mundo em volta com xicha. Vai lá, ela merece. E o Davi mostra outro caminho. O caminho mais difícil. Largar a lança. Não dar o golpe. Mesmo podendo. Confiar que a justiça não precisa sair da sua mão naquele segundo. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que te machucou. E numa situação em que você teve. Ou tem a chance de dar o troco. De falar aquela verdade que vai doer.

De expor a pessoa. De revidar. E repara, só hoje, no que essa vontade de troco causa em você. Como ela pesa. Como ela fica girando na cabeça. E aí, só por hoje, experimenta segurar a lança. Não usar a chance que você tem. Não porque a pessoa merece, mas porque carregar uma vingança em venena mais quem carrega do que quem recebe. Não precisa perdoar tudo de uma vez. Isso leva tempo. Só repara como é segurar a mão. Mesmo podendo bater. Porque às vezes a maior força que existe não é a de dar o golpe. É a de poder dar e escolher não dar.