Um arbusto pega fogo no meio do deserto, e o fogo não para de queimar. E as chamas estão ali, vivas, fortes. Mas o arbusto não vira cinza, não se consome, continua verde, queimando, sem nunca acabar. E uma voz sai do meio do fogo e chama um homem pelo nome. Deixa eu te contar o que acontece nesse dia. Lembra do Moisés, o bebê tirado das águas, criado no Palácio do Egito, que fugiu para o deserto depois de matar um homem. Faz 40 anos que ele vive ali, numa terra distante chamada Midian, cuidando de ovelhas. Casado, com filho, vida simples. E num dia comum, igual a todos os outros, ele está levando o rebanho para o lado de uma montanha.
Uma montanha chamada Orebê, que também é conhecida como Sinae. Guarda esse nome. Essa montanha vai voltar. E é aí que Moisés vê uma coisa que não faz sentido. Um arbusto pegando fogo. Mas o arbusto não queima de verdade. As chamas estão ali, mas a planta continua inteira. E Moisés pensa, que coisa estranha, vou chegar mais perto para ver porque esse arbusto não vira cinza. E quando ele se aproxima, uma voz chama do meio do fogo. Moisés, Moisés, e ele responde, aqui estou, e a voz diz, não chegue mais perto, tira as sandalhas dos pés, porque o lugar onde você está pisando é terra santa, e aí a voz se apresenta, diz, eu sou o Deus do seu pai.
O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, para um sem-nisso. É o mesmo Deus da história toda. O Deus que prometeu uma terra para o Abraão lá atrás. O Deus que esteve com o José na prisão. É a promessa antiga voltando a falar. E agora ela fala do meio do fogo, com um pastor de ovelhas. E Moisés cobre o rosto. Tem medo de olhar. E aí Deus diz uma coisa que é o coração de tudo. Ele diz, eu vi. Eu vi o sofrimento do meu povo no Egito. Eu ouvi o clamor deles. Eu conheço a dor deles. Repara nessas palavras. Eu vi. Eu ouvi. Eu conheço. Aquele povo escravizado achava que ninguém estava prestando atenção.
E Deus diz, eu vi tudo e continua. Por isso eu desci para livrar esse povo da mão dos egípcios e para levar eles para uma terra boa e larga, uma terra onde corre leite e mel, uma terra de fartura. Era assim que diziam, para falar de um lugar abençoado cheio de vida, onde corre leite e mel. Leite porque tinha pasto bom para os rebanhos. Mel porque tinha flores, abelhas, doçura. Era o jeito antigo de dizer. Um lugar onde dá para viver bem, em paz, sem passar fome. O oposto do Egito da escravidão. E aí vem a parte que vira a vida de Moisés do avesso. Deus diz, agora vai. Eu estou te enviando ao faraó.
Para você tirar o meu povo, os israelitas, do Egito, Moisés gela e começa a discutir com Deus. E é aqui que a história fica muito humana e muito honesta. A primeira coisa que ele diz é, quem sou eu? Quem sou eu para ir falar com um faraó e tirar um povo inteiro do Egito? Ele se sente pequeno demais, fraco demais. E Deus responde com uma frase só, que vale por tudo. Eu estarei com você. Não diz você é forte o suficiente. Diz eu vou junto. Você não vai sozinho, mas Moisés continua com medo. E pergunta, tá. Mas se eu chegar lá e o povo perguntar qual é o nome do Deus que te mandou, o que eu respondo? E Deus dá uma resposta misteriosa e linda.
Ele diz, eu sou o que sou. Diz a eles que eu sou, te enviou. É um jeito de dizer, eu sempre fui, sempre serei. Eu existo por mim mesmo. Não dá para encaixar Deus numa caixinha com um nome qualquer. Ele é aquele que simplesmente é. E Deus explica todo o plano. Diz que Moisés vai juntar os líderes do povo. Vai falar com o faraó, que o faraó não vai querer deixar o povo ir. E que Deus então vai agir com poder até o Egito finalmente soltar o povo. Mas Moisés ainda não está convencido. E aí ele larga a desculpa seguinte. E se eles não acreditarem em mim? E se disserem que Deus nem apareceu para mim? E Deus dá a ele um sinais.
Pergunta, o que é isso na sua mão? E Moisés diz, é o meu cajado, o bastão de pastor. Deus manda ele jogar no chão. E o cajado vira uma cobra, Moisés foge dela. Deus manda ele pegar a cobra pela cauda. E ela vira cajado de novo na mão dele. E da outro sinal, Deus manda Moisés colocar a mão dentro da roupa, no peito. Quando ele tira, a mão está branca, doente, coberta de uma doença de pele. Ele coloca de novo, tira de novo, e a mão está curada, normal. Sinais para mostrar que Deus está mesmo com ele. Mas Moisés ainda não quer ir. E vem a desculpa mais sincera de todas. Ele diz, Senhor, eu nunca soube falar bem.
Eu sou pesado de boca, pesado de língua. As palavras travam na minha boca. Eu gaguejo, eu me atrapalho. E Deus responde, quem foi que fez a boca do homem? Quem faz alguém mudo, ou surdo, ou capaz de enxergar? Não fui eu? Então vai. Eu vou estar com a sua boca e vou te ensinar o que falar. E aí no fim, Moisés joga a última cartada. Já sem desculpa nenhuma, ele simplesmente implora. Por favor, Senhor, manda outra pessoa. Manda qualquer um, menos eu. E o texto diz que Deus se irritou com Moisés. Mas mesmo assim, olha o que ele faz. Ele não desiste do Moisés. Ele dá um jeito. Diz, olha, você tem um irmão, o arão.
Ele fala bem. Ele já está vindo te encontrar. Você fala com ele, e ele fala com o povo. Você vai ser como a voz de Deus pra ele, e ele vai ser a boca pra você. E Deus diz, leve o seu cajado na mão. Com ele você vai fazer os sinais. E é aqui que essa parte da história para. Com Moisés, depois de cinco desculpas, finalmente sem ter mais o que dizer. Chamado, equipado, e mandado. Eu fico pensando muito nessa conversa, porque a gente imagina que Deus escolheria o sujeito mais confiante, mais eloquente, mais corajoso, um líder nato, e não. Ele escolhe um pastor de ovelhas de 80 anos, fugitivo, que gagueja, e que passa a conversa inteira dizendo por favor, escolhe outro.
Moisés deu cinco motivos pra não ir. Quem sou eu? E se perguntarem teu nome. E se não acreditarem, eu não sei falar. E por último, manda outro, qualquer outro. E Deus não respondeu nenhuma dessas desculpas dizendo, ah, você está enganado. Você é incrível. A resposta foi sempre a mesma. Por baixo de tudo, eu vou estar com você. Não era sobre o Moisés ser suficiente. Nunca foi. Era sobre quem ia junto com ele. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa que você sente que devia fazer, mas que você foge. Com aquela frase, eu não sou a pessoa certa pra isso. Não tenho jeito. Não sei falar.
Não sou bom o bastante que escolhe um outro. E hoje, reparem quantas vezes essa frase aparece na sua cabeça. Eu não. Eu não consigo. Eu não sou. Você não precisa se sentir pronto. Moisés não se sentiu, nem com um arbusto pegando fogo na frente dele. Às vezes a pergunta certa não é eu sou capaz. É, eu estou disposto a dar o primeiro passo, mesmo tremendo. Moisés foi tremendo, gaguejando, sem querer. E ainda assim foi.