A morte de Moisés — às portas da terra prometida · Deuteronômio 31:1–34:12

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 19 de 19 — em ordem cronológica

Ele viu a terra prometida, mas nunca pisaria nela. E você, até onde é capaz de ir por um sonho que não será seu?

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Transcrição

Um homem velho sobe sozinho numa montanha. Ele tem 120 anos. As pernas ainda firmes, os olhos ainda bons. Lá de cima, ele consegue ver tudo, o horizonte inteiro. A terra que ele passou a vida inteira tentando alcançar, ele olha. Olha demorado. A terra está ali, do outro lado. Verde, real, pertinho. E ele sabe que não vai pisar nela. Que aquele é o último lugar de onde ele vai olhar o mundo. Deixa eu te contar como a gente chegou aqui. O Moisés tinha terminado tudo. Tinha repetido a lei para geração nova. Tinha falado do amor de todo o coração. Tinha colocado os dois montes na frente do povo e pedido.

Escolhem a vida. E agora não sobrava mais o que dizer. A jornada dele tinha chegado no fim. Lembra de tudo o que esse homem viveu. Foi tirado das águas quando bebê, cresceu como príncipe no Egito. Fugiu pro deserto e virou pastor. Viu uma sarsa pegando fogo sem se queimar e ouviu Deus chamar o nome dele. Voltou ao Egito, enfrentou o faraó, viu o mar abrir, subiu uma montanha em chamas e desceu com a lei nas mãos. Guiou um povo difícil por 40 anos no deserto. Aguentou as queixas, as traições, o cansaço. 40 anos cuidando de uma multidão que reclamava o tempo todo. E ele segurou. Até o fim ele segurou.

Mas teve uma vez, lá atrás, em que o próprio Moisés vacilou. Num momento de raiva com o povo, ele desobedeceu a Deus. Foi uma coisa só, mas teve um preço. E o preço foi esse. Ele guiaria o povo até a beira da terra, mas não entraria nela. Pensa no peso disso. O homem que passou a vida inteira indo em direção àquela terra ia chegar até a porta, mas não ia atravessar. E chega o dia. O Moisés faz suas últimas coisas. Ele escolhe quem vai liderar depois dele. O nome dele é Josué, um homem mais novo, que andou ao lado do Moisés todos esses anos. O Moisés coloca as mãos sobre ele, na frente de todo mundo, e passa a liderança, a passagem de bastão.

E ele abençoa o povo, tribo por tribo, como um pai que abençoa os filhos antes de partir. E aí ele faz a última coisa. Ele sobe a montanha, sozinho. O nome dela é Monte Nebo. E lá do alto o texto diz, Deus mostra pra ele a terra toda, aponta cada pedaço. Olha, é aquela li, a terra que eu prometi, lá atrás, pro Abraão, pro Isaac, pro Jacó. Está vendo? Está ali. E Deus diz uma coisa de uma honestidade que dói. Ele diz eu deixei você ver com os seus olhos, mas você não vai atravessar pra lá. Para e fica nessa imagem por uns cestes. O Moisés velho no topo do monte, o vento batendo e ali na frente, do outro lado, tudo aquilo que ele perseguiu a vida inteira.

Tão perto que dá pra ver. E ele sabe que aquele é o ponto final dele, que dali ele só vai olhar. Tem gente que acha isso triste. E é, mas tem outra forma de olhar. Porque o Moisés conseguiu ver. Deus não escondeu dele. Deixou ele subir e contemplar tudo, com calma, com os olhos bons que ele ainda tinha. Ele viu o sonho realizado, mesmo que não fosse ele apesar nele. E ali, no alto daquela montanha, olhando a terra prometida, o Moisés morre. O texto diz uma frase linda e simples sobre isso. Diz que ele morreu ali e que Deus mesmo o sepultou num vale. E que até hoje ninguém sabe onde fica o túmulo dele.

Pensando nisso, o maior líder daquele povo e não tem túmulo pra visitar. Nenhum monumento, como se a mensagem fosse, não é pra ficar olhando pra trás pro líder que se foi. É pra olhar pra frente, pra terra que se abre. E o texto fecha com uma despedida. Diz que nunca mais surgiu em Israel um profeta como Moisés. Alguém com quem Deus falava cara a cara, como se fala com um amigo, cara a cara, como um amigo. Esse foi o resumo da vida dele. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque tem uma coisa nessa morte que fala muito com a gente, o Moisés passou a vida construindo uma coisa que ele mesmo não ia ver pronta.

Ele tirou um povo da escravidão e o levou até a porta de um lar onde ele nunca ia morar. Ele plantou uma árvore sabendo que ia ser outro a sentar na sombra dela. E mesmo assim, ele foi até o fim, não largou no meio só porque não ia colher. Eu acho que tem uma grandeza enorme nisso. A maior parte das coisas boas que existem no mundo foram começadas por gente que não chegou a ver o resultado. Alguém plantou, alguém abriu o caminho, alguém carregou o povo até a beira e passou o bastão pra quem vinha depois. E talvez seja isso que o Monte-Nebo ensina, que a vida da gente não precisa terminar com tudo resolvido, com todo o sonho realizado nas nossas mãos.

Às vezes a nossa parte é levar até a porta e confiar que outro atravessa o Moisés viu a terra. E isso bastou. Ele entregou tudo o que tinha pra entregar e descansou. O aqui vai uma coisa pra hoje. E também é uma coisa pra fechar essa parte inteira da história. Pensa numa coisa boa que você faz. Ou que você quer fazer, sabendo que talvez você não veja ela toda pronta. Pode ser criar um filho. Pode ser um trabalho que vai dar fruto daqui há muitos anos. Pode ser plantar alguma coisa, no sentido literal ou não, pra alguém que vem depois de você. E hoje, em vez de se cobrar por não ter chegado lá ainda, tenta uma coisa diferente.

Sobe no seu monte-nebo, do seu jeito, pra um instante e olha pra frente. Olha pra onde a coisa que você está construindo pode chegar, mesmo que você não esteja lá pra ver. E em vez de tristeza por não ter chegado, vê se você consegue sentir um pouco do que o Moisés deve ter sentido lá no alto. Aquela paz de quem fez a sua parte. De quem carregou o que dava pra carregar, com o coração inteiro, até onde dava. Porque é assim que a história mais antiga do mundo nos conta que se fecha um ciclo, não pisando em toda a terra que a gente sonhou, mas olhando pra ela do alto, em paz e confiando o resto pra quem vem depois.