Uma mulher chora tanto e reza tão desesperada, mexendo os lábios sem som, que o sacerdote olha para ela e acha que ela está bêbada. Mas ela não estava bêbada, ela estava com o coração partido. E o que ela pediu naquele dia ia mudar a história de um povo inteiro. Deixa eu te contar, tinha uma mulher chamada Ana, ela era casada com um homem chamado Elcana. E o Elcana amava muito a Ana, mas a Ana carregava uma dor enorme por dentro. Ela não conseguia ter filhos. Hoje a gente entende que muita coisa pode causar isso e que não tem culpa nenhuma. Mas naquele tempo para uma mulher não ter filhos era visto como uma das maiores tristezas da vida.
Era motivo de vergonha, de fofoca, de pena. As pessoas julgavam e doía e a situação da Ana era ainda mais difícil, porque na quele tempo um homem podia ter mais de uma esposa e o Elcana tinha duas, a Ana e outra mulher chamada Pinina. E a Pinina tinha vários filhos. A Ana não tinha nenhum e a Pinina em vez de ter dor fazia o contrário. Ela provocava a Ana, cutucava, humilhava, justamente no ponto que mais doía, ano após ano, a Pinina implicava com a Ana por causa dos filhos que ela não conseguia ter. Todo ano a família subia até um lugar chamado Siló para adorar a Deus e oferecer sacrifícios.
Era ali que ficava a tenda sagrada, a casa de Deus daquela época. E o Elcana, que amava a Ana, tentava consolar. Na hora da refeição, ele dava uma porção especial para ela e dizia, com carinho, "Ana, por que você está chorando? Por que não come? Por que está tão triste? Eu não valho mais para você do que dez filhos." Era doce da parte dele, mas não resolvia o buraco que a Ana sentia por dentro, até que num desses dias em Siló, a Ana não aguentou mais. Ela levantou da mesa com o coração em pedaços e foi até a tenda de Deus e lá ela começou a rezar, mas não era uma reza qualquer.
Ela chorava muito, estava em agonia, despejava toda a dor dela diante de Deus e ela fez uma promessa. Diz-se, mais ou menos assim, Deus, se o Senhor olhar para minha tristeza e se lembrar de mim e me der um filho homem, eu prometo que vou devolver esse filho para o Senhor. A vida inteira dele vai ser dedicada a Ti. Pensa no tamanho dessa promessa. Ela queria tanto, tanto um filho e mesmo assim ela estava dizendo, "Se eu ganhar, eu devolvo." Ela não queria o filho só para ela, ela queria que aquela vida fizesse parte de algo maior e ela rezava de um jeito que era raro naquele tempo. Em vez de falar em voz alta, ela rezava só com o coração.
Os lábios mexiam, mas não saía som nenhum. Era uma conversa só dela com Deus, lá dentro, e foi aí que aconteceu uma cena meio constrangedora. Tinha um sacerdote velho ali chamado Elí e ele viu a Ana de longe, viu aquela mulher com a boca se mexendo, sem som, balançando, com o rosto molhado de tanto chorar. E o Elí pensou a coisa errada, achou que ela tinha bebido demais e foi falar com ela meio bruto. Até quando você vai ficar bêbada, larga o vinho, imagina a Ana, no fundo do poço, derramando a alma diante de Deus e ainda é confundida com uma bêbada, mas ela respondeu com uma calma e uma dignidade lindas, disse "Não, Senhor, eu não bebi nada, eu sou uma mulher de espírito aflito, eu não estava bêbada, eu estava derramando a minha alma diante de Deus, eu estava rezando do fundo da minha angústia" e o Elí entendeu, mudou completamente o tom e disse para ela "vai em paz" e que Deus te dê aquilo que você pediu.
E aqui acontece uma coisa bonita, a Ana foi embora e o texto diz que ela comeu de novo e que o rosto dela não estava mais triste. Repara, o problema dela ainda não tinha sido resolvido, ela ainda não tinha o filho, mas alguma coisa já tinha mudado por dentro, ela tinha entregado o peso, tinha colocado a dor nas mãos de Deus e saído mais leve. Às vezes o alívio vem antes mesmo da resposta, vem na hora em que você finalmente solta o que estava carregando sozinho e o tempo passou, a família voltou para casa. E Deus se lembrou da Ana, ela engravidou e teve um filho, um menino e ela deu para ele um nome cheio de significado, Samuel, que lembra a ideia de Deus ouviu, porque foi exatamente isso que ela sentiu, que Deus tinha ouvido o pedido dela lá no chão da tenda, no meio das lágrimas, mas lembra da promessa que ela tinha feito de devolver o filho para Deus.
A Ana não esqueceu e ela ia cumprir, mas primeiro ela cuidou do bebê, por uns dois ou três anos até ele crescer um pouco e parar de mamar, ela ficou com ele. Esses primeiros anos foram só dela, imagina o amor que ela despejou naquela criança, sabendo que logo ela ia precisar entregar, e quando Samuel já estava maiorzinho, a Ana cumpriu o que tinha prometido, ela levou o menino de volta a Siló, de volta para o sacerdote ali e disse para ele, lembra de mim, eu sou aquela mulher que estava aqui rezando anos atrás, eu pedi a Deus esse menino e Deus me deu, então agora é o entregue de volta, pela vida toda dele ele vai pertencer a Deus, e ela deixou o filhinho ali, para crescer servindo na casa de Deus, ao lado do velho sacerdote ali, para e pensa no tamanho disso, ela passou anos chorando por um filho, e quando finalmente ganhou, ela o entregou, não porque amava menos, mas porque tinha feito uma promessa, e porque sabia que aquela vida tinha um propósito maior do que ficar só para ela, e aí em vez de chorar, a Ana faz uma coisa surpreendente, ela canta, ela faz uma oração linda, cheia de alegria e de força, ela diz coisas como, o meu coração se alegra em Deus, ele levanta o pobre do pó, ele enche de comida quem tinha fome, ele dá filhos a quem não tinha, Deus abaixa e Deus levanta, a força do homem não decide nada sozinha, quem decide é Deus, é uma das orações mais bonitas da Bíblia, e é importante saber disso, muitos e muitos anos depois, quando uma jovem chamada Maria descobriu que ia ser mãe de Jesus, ela cantou uma oração muito parecida com essa da Ana, as palavras se encontram, atravessando os séculos, e o Samuel cresceu ali, na casa de Deus, servindo desde pequenininho, e ele ia se tornar um dos maiores líderes que Israel já teve, um profeta, o homem que mais tarde ia escolher e ungir os primeiros reis daquele povo, inclusive o rei Davi, tudo isso começou com uma mulher chorando no chão de uma tenda, sendo confundida com uma bêbada, e é aqui que eu paro para pensar, o que mais me pega na Ana é o jeito que ela rezou, ela não fez uma reza bonitinha arrumada, de quem está tudo bem, ela despejou, chorou feio, mostrou para Deus a dor exata sem maquiar, a gente às vezes acha que precisa chegar arrumado, calmo, com as palavras certas, para falar com Deus, ou para desabafar com alguém, como se a dor precisasse estar penteada antes de poder ser dita, a Ana mostra o contrário, ela chegou suja de lágrimas, sem som na voz, do jeito que estava, e foi exatamente assim, no estado real dela, que ela foi ouvida, e tem a outra parte, que é mais difícil, ela abriu a mão, ela queria tanto aquele filho, e quando ganhou, ela não se agarrou, devolveu, porque tinha entendido que as coisas mais preciosas que a gente recebe não são para a gente apertar com força no peito para sempre, são para a gente segurar com a mão aberta, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa dor que você está carregando meio escondida, uma coisa que dói, e que talvez você nem tenha falado direito para ninguém, que você anda guardando, fazendo cara de que está tudo bem, e hoje, em algum momento, tira ela de dentro, põe para fora do jeito que ela for mesa ajeitada, chorosa, sem palavras bonitas, fala com Deus, escreve num papel, ou desabafa com alguém de confiança, não precisa estar arrumada, a Ana não arrumou a dela, ela só foi honesta, porque tem um alívio que não vem quando o problema se resolve, vem na hora em que a gente finalmente para de carregar tudo sozinho, calado, e coloca o peso onde ele pode finalmente descansar.