O nascimento de Isaque · Gênesis 21:1–21

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 19 de 37 — em ordem cronológica

Uma mulher de noventa anos segurando o primeiro filho nos braços. O que faria você gargalhar depois de enterrar um sonho para sempre?

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Transcrição

Uma mulher de 90 anos está segurando um bebê nos braços, o bebê dela, o primeiro filho dela, depois de uma vida inteira esperando. É elarí. Mas dessa vez o riso é diferente. Deixa eu te contar como a gente chegou aqui. A Sara tinha esperado esse filho a vida toda, desde nova, e nunca tinha vindo. Ela ficou velha esperando. O marido, o abraão, ficou velho esperando. Deus tinha prometido esse filho muitas vezes, e demorou tanto, mas tanto, que quando os visitantes vieram dizer que ano que vem você vai ter um filho, a Sara riu. Riu por dentro, escondida, de tão impossível que aquilo parecia.

Ela já tinha enterrado esse sonho, fazia tempo. E então o texto começa com uma das frases mais bonitas de todo esse trecho da Bíblia. Ele diz. E o Senhor visitou a Sara, como tinha dito, e fez por ela o que tinha prometido. Como tinha dito. Como tinha prometido. O texto bate duas vezes nessa tecla, de propósito. Aquilo que parecia impossível, aquilo de que a Sara tinha rido, aconteceu exatamente como Deus tinha falado, a Sara engravida. E dá à luz um filho ao abraão na velhice dele, no tempo certo, no tempo que Deus tinha marcado. E o abraão dá ao menino o nome que Deus tinha mandado, Isaac.

E você lembra o que Isaac quer dizer? Ele rir. O nome do menino significa ele rir. E aí a Sara diz uma frase que dá um nó na garganta. Ela olha para o bebê e fala, Deus me deu motivo para rir. E todo mundo que souber disso vai rir comigo. Olha a virada. O mesmo riso. Antes era o riso de quem não acreditava, de quem achava impossível. Agora é o riso de alegria, de uma felicidade que ela nem cabia em si. O riso de descrença virou o riso de festa. E ela continua, ainda sem acreditar direito na própria sorte. Quem teria dito ao abraão que a Sara amamentaria filhos? E no entanto, eu dei a ele um filho na velhice.

O menino cresce. E quando ele é desmamado, quando deixa o leite e começa a comer sozinho, o abraão faz uma grande festa, uma festa enorme para comemorar aquela criança que ninguém achava que ia chegar. Mas aí a história faz uma curva triste. Porque você lembra que, anos antes, num momento de cansaço de esperar, a Sara tinha dado a serva dela a ragar para o abraão. E dessa união tinha nascido um outro menino, o Ismael. Um filho mais velho, da serva. E na festa, a Sara vê o Ismael, o menino mais velho, zombando do pequeno Isaac, caçoando do irmãozinho. E aquilo mexe com ela. Ela tem medo.

Medo de o filho dela ter que dividir tudo, a herança, o futuro, com o filho da serva. E ela vai falar com o abraão e pede uma coisa dura. Manda embora essa serva e o filho dela. O filho dela não vai herdar junto com o meu Isaac. E o abraão fica arrasado, porque o Ismael também era filho dele. Ele amava aquele menino também. A frase diz que aquilo entristeceu muito o abraão por causa do filho. E aí Deus fala com o abraão. E faz uma coisa que eu acho importante a gente reparar. Deus não despreza o Ismael. Pelo contrário, Deus diz, não fica triste por causa do menino e da serva. Faz o que a Sara pediu, porque é pelo Isaac que vai seguir a promessa.

Mas e olha o mas eu também vou fazer do filho da serva um grande povo, porque ele também é seu filho. Quer dizer, o Isaac é o caminho da promessa. Mas o Ismael não está abandonado. Deus cuida dos dois e o abraão obedece com o coração apertado. De manhã cedo, ele prepara um pouco de pão e um odre de água. Põe nas costas da Ragar e manda ela embora com o menino. E aqui a história fica de cortar o coração. Arragar caminha pelo deserto com o filho e a água acaba. Ela está sozinha, no meio do nada, sem água, com o menino que ela ama e que está morrendo de sede. E ela faz o que talvez seja a coisa mais dolorosa que uma mãe pode fazer.

Ela coloca o menino debaixo de um arbusto para ele ter um pouco de sombra e se afasta. Senta a uma certa distância, porque ela diz, eu não aguento ver o menino morrer. E ela chora, senta ali de longe e chora alto, e aí o texto vira de novo. Ele diz que Deus ouviu a voz do menino. E um anjo chama a Ragar do céu e diz, o que você tem em Ragar? Não tenha medo. Deus ouviu a voz do menino aí onde ele está. Levanta, pega o menino pela mão, segura ele firme, porque eu vou fazer dele um grande povo. E aí Deus abre os olhos dela. Repara nisso. Não diz que Deus criou uma fonte do nada. Diz que Deus abriu os olhos dela e ela enxerga um poço de água que estava ali.

A água já existia. Ela só não estava conseguindo ver de tanto desespero. E ela corre, enche o odre e dá de beber ao menino. E o texto fecha dizendo que Deus estava com o menino enquanto ele crescia. O Ismael cresceu no deserto, virou um homem. E dele saiu um povo exatamente como Deus tinha prometido. Duas mães, dois filhos. E os dois, cada um do seu jeito, cuidados. Eu fico pensando muito nessa história. Tenho o riso da Sara, que me toca demais. Aquele riso que começou como descrença e terminou como festa. Acho que é uma das coisas mais lindas que pode acontecer com a gente. Ver uma coisa que a gente achou impossível acontecer de verdade.

E o velho riso amargo se transformar em riso de alegria. A mesma boca, rindo por um motivo completamente diferente. Mas o que mais me pega é a rágar no deserto. Aquela cena dela sentada longe sem conseguir olhar pro filho morrendo, chorando sozinha. E a resposta não foi um milagre espetacular. Foi simplesmente. Deus abriu os olhos dela. E ela viu o poço que já estava ali. Às vezes a salvação não é uma coisa nova que aparece. É a gente finalmente conseguir enxergar o que sempre esteve do nosso lado. O desespero estreita a visão. A gente fica tão fixado no problema, tão certo de que acabou.

Que deixa de ver a saída que está bem ali, há alguns passos. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa situação em que você se sente sem saída. Aquele problema que parece que não tem solução, que você já revirou de todos os jeitos. E hoje, antes de decidir que não tem jeito, faz uma pausa. Respira. E se pergunta com calma. Será que tem um poço por perto que eu não estou vendo de tão preocupado? Uma pessoa que eu poderia pedir ajuda? Um caminho que eu descartei rápido demais. Algo que sempre esteve ali. Você não precisa resolver tudo. Só de abrir os olhos um pouco mais. Às vezes a água já está ali.

A gente só precisa enxergar.