um rei dá uma ordem secreta, e a ordem é matar todos os bebês de um povo inteiro. O povo inteiro, como é que se chega num lugar desses? Como é que um país inteiro vira contra um grupo de gente que não fez nada? Deixa eu te contar como começa. Lembra do José, aquele que foi vendido pelos irmãos, foi parar no Egito e acabou virando o homem mais poderoso do país depois do rei. Foi ele que salvou todo mundo da fome e foi ele que trouxe o pai, o velho Jacó e os irmãos e toda a família para morar no Egito, numa terra boa. E o texto até faz questão de listar os nomes. Os filhos de Jacó, um por um, Ruben, Simeão, Levi, Judá e todos os outros, como quem abre um álbum de família antes de começar a história, pra deixar claro.
Tudo isso que vem agora nasce daquela gente que você já conhece, era uma família. 70 pessoas, mais ou menos, só isso. Mas agora a gente dá um salto enorme no tempo. Passam os anos, passam as décadas, passam os séculos, o José morre, os irmãos morrem, toda aquela geração morre e aquela família pequena de 70 pessoas cresce, cresce de um jeito que ninguém esperava. O texto descreve isso de um jeito quase impossível de acreditar. Ele diz que eles foram férteis, que se multiplicaram, que ficaram muito, muito numerosos, que a terra se encheu deles de uma família, virou um povo, um povo grande, o povo de Israel, e aí entra o problema.
Sobe ao trono do Egito um novo rei, um faraó novo. E o texto diz uma frase pequena, mas que carrega todo o peso da história. Ele diz, subiu um rei que não tinha conhecido o José. Pensam nisso, o homem que salvou o Egito da fome, o José, já tinha sido esquecido. Ninguém lembrava mais. Para o rei novo, aquele povo todo era só estrangeiro, gente diferente, gente demais. E o rei começa a ter medo, esse é o detalhe que move tudo. Não foi maldade gratuita no começo, foi medo. O faraó olhou para aquele povo e em vez de ver gente viu ameaça, viu número, viu perigo. E quando a gente para de enxergar pessoas e passa a enxergar só eles, os outros, os diferentes, é aí que as coisas mais terríveis ganham permissão para acontecer.
Ele olha para aquele povo crescendo, crescendo e fala para o seu próprio povo. Olha, esses israelitas são numerosos demais, fortes demais, e se vier uma guerra, eles podem se juntar com os nossos inimigos, lutar contra a gente e fugir da nossa terra. Repara no medo, o povo de Israel não tinha feito nada. Não eram inimigos, mas o rei olhou para eles e enxergou uma ameaça. Só por serem muitos, só por serem diferentes. E o medo, quando vir a ódio, faz coisas terríveis. O rei bola um plano, ele decide escravizar aquele povo todo, coloca capatazes em cima deles, homens duros, para fazer eles trabalharem até não aguentar mais.
E os israelitas começam a construir cidades inteiras para o faraó, cidades armazém, para aguardar as riquezas do rei. Duas delas, o texto até dá o nome Piton e Rameses, trabalhando no barro, na argila, fazendo tijolo, carregando peso, no sol pesado do Egito. A vida deles virou uma vida amarga, é a palavra que o texto usa, amarga. O texto diz que os egípcios faziam eles servirem com dureza, com crueldade, em todo tipo de trabalho do campo e da construção. Trabalho duro, sem descanso, sem fim, mas aí vem a parte mais incrível. Quanto mais o faraó apertava, mais o povo crescia. Isso mesmo, o rei oprimia, e eles se multiplicavam, espalhavam ainda mais.
Era como tentar apagar um fogo jogando lenha, e isso deixou os egípcios apavorados. Quanto mais eles maltratavam, menos resultado. Então o faraó endureceu ainda mais. Apertou ainda mais o serviço, tornou a vida deles ainda mais pesada, mas não adiantou. O povo não parava de crescer. Então o rei toma uma decisão muito mais sombria. Ele chama duas mulheres, duas parteiras, as mulheres que ajudavam os bebês hebreus a nascer. Os nomes delas o texto até guarda, cifrar e puar. E o rei dá uma ordem horrível, em segredo. Ele diz, quando vocês ajudarem as mulheres hebreias a dar a luz, prestem atenção.
Se for menino, matem o bebê, se for menina, deixem viver. Pensa no que ele está pedindo, para matar os bebês na hora em que eles nascem. Para apagar o povo aos poucos, de dentro, sem que ninguém perceba. Por que duas parteiras? Porque o faraó queria fazer aquilo em segredo, sem a larde, sem o povo perceber. Era para ser silencioso. Cada menino que nascesse, morria ali, sem ninguém ficar sabendo. Um genocídio caladinho, escondido dentro das casas, na hora mais frágil de todas, a hora do parto. Mas aí acontece uma coisa linda. As duas parteiras desobedecem. O texto diz por que. Diz que elas temiam a Deus, que tinham mais respeito por Deus do que medo do rei.
Então elas simplesmente não fizeram o que o faraó mandou. Deixaram os meninos viverem. O rei percebe, chama as duas e cobra. Por que vocês estão deixando os meninos vivos? E elas dão uma resposta esperta. Dizem, ah, é que as mulheres hebreias não são como as egípcias. Elas são fortes. Os bebês nascem antes mesmo da gente chegar. E Deus foi bom com aquelas duas mulheres. O povo continuou crescendo. E porque elas escolheram proteger a vida, em vez de obedecer a uma ordem cruel, o texto diz que Deus deu a elas suas próprias famílias. Mas o faraó não desiste. Ele endurece o coração de vez.
E dá a ordem mais terrível de todas. Dessa vez, não em segredo, para o povo inteiro. Ele manda, todo menino hebreu que nascer, joguem no Rio Nilo, todos, só as meninas podem viver. E é aqui que o capítulo para, com um povo inteiro escravizado e uma ordem de morte por cima de cada bebê que nasce. Eu fico pensando muito em como essa história começa, porque ela não começa com um herói, não começa com um milagre, começa com um povo sofrendo, no fundo do poço, sem ninguém para socorrer. Começa no escuro. E mesmo ali, no meio do escuro, tem duas mulheres, duas parteiras que a história quase esqueceria.
E elas fazem uma coisa pequena e enorme ao mesmo tempo. Elas dizem não, não para o medo, não para a crueldade, não para uma ordem que era poderosa demais para elas enfrentarem. Elas não tinham exército, não tinham poder, tinham só uma escolha, proteger uma vida, ou tirar uma vida, e escolheram proteger. E é assim que a libertação de um povo inteiro começa. Não com força. Com duas mulheres que tiveram coragem de desobedecer ao homem mais poderoso do mundo, aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa situação em que todo mundo está fazendo uma coisa que você sente. Lá no fundo que não é certa.
Pode ser pequena. Uma fofoca que todo mundo repete. Uma injustiça que ninguém contesta. Uma covardia que virou normal. E hoje, só hoje, repara se aparece uma chance de fazer diferente. Sem discurso, sem briga, só não entrar na onda. Só fazer a coisa certa, em silêncio, do seu jeito. Se fra e pua não mudaram o Egito com um grito. Mudaram com um não, dado baixinho, na hora certa. Às vezes a coragem mais importante é a mais quieta.