Isaque e Rebeca — a bênção roubada · Gênesis 26:1–27:40

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 25 de 37 — em ordem cronológica

Imagine um pai cego abençoando o filho errado, roubando a herança mais valiosa. O que você faria se fosse o irmão enganado, gritando por justiça?

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Transcrição

Imagina um pai velho, quase cego, deitado na cama. Ele chama o filho que mais ama pra dar a ele a benção mais importante da vida inteira. E o filho que se ajoelha na frente dele é o filho errado, disfarçado, mentindo, roubando algo que não era dele. Essa é uma das histórias mais tensas do início da Bíblia, e ela começa com fome. Deixa eu te contar. O pai dessa história se chama Isaac. Ele é filho do Abraão, aquele homem que Deus chamou lá no comecinho de tudo. Isaac cresceu, casou com uma mulher chamada Rebeca, e teve dois filhos gêmeos. Os dois nasceram quase juntos, mas eram opostos.

O primeiro a nascer se chamava Isaú, um homem do campo peludo, caçador, forte. O tipo que o pai admirava. O segundo se chamava Jacó, mais quieto, mais de ficar em casa, mais esperto. E esse era o preferido da mãe. Guarda isso, um pai que amava mais um, uma mãe que amava mais o outro. Essa casa já estava dividida muito antes da confusão começar. Mas antes da benção, o texto conta uma outra coisa. Veio uma fome grande na terra, não tinha comida. E Isaac pensou em descer pro Egito, como o pai dele tinha feito um dia. Só que Deus aparece pra Isaac e fala uma coisa. Não desce pro Egito.

Fica aqui nessa terra. Eu vou estar com você. Eu vou te abençoar. E essa terra vai ser sua e dos seus filhos. A mesma promessa que eu fiz pro seu pai, Abraão. Eu faço pra você. E Isaac ficou. Plantou naquela terra mesmo, no meio da fome. E aconteceu uma coisa estranha. Ele colheu cem vezes mais do que plantou. Ele ficou rico. Tão rico que os vizinhos começaram a ter inveja. Os vizinhos enchiam os poços de água dele de terra pra atrapalhar. Isaac cavava outro. Eles tampavam de novo. Ele cavava outro. Até que sobrou espaço pra todo mundo. E ele deu um nome àquele lugar que quer dizer mais ou menos.

Agora cabe todo mundo. Repara no jeito do Isaac. Ele não brigava. Não revidava. Ele só cavava de novo, mais pra frente e seguia. Mas a história grande mesmo vem depois. Quando Isaac já tava bem velho, os olhos dele tinham ficado fracos. Ele quase não enxergava mais. E ele sentiu que ia morrer. Então ele chamou Isaú, o filho mais velho, o caçador. E disse, "Filho, eu já tô velho. Não sei o dia da minha morte. Pega o teu arco, vai ao campo, caça um animal pra mim e me prepara aquela comida gostosa que eu amo. Aí eu como e te dou a minha bênção antes de morrer. Agora você precisa entender o que era essa bênção." Não era só um Deus te abençoe.

Naquele tempo, a bênção do pai era quase um testamento falado. Era passar pro filho a liderança da família. A promessa que Deus tinha feito, o futuro inteiro. Uma vez dita, não voltava atrás. Era a palavra final. E Isaú saiu correndo pro campo, feliz pra caçar. Só que tinha uma pessoa escutando tudo atrás da porta. A mãe, Rebeca. E Rebeca tinha um plano. Ela correu pro filho que ela amava o Jacó e contou tudo. Diz-se, seu pai vai abençoar o Isaú. Mas você vai chegar primeiro. E o plano dela era pesado. Ela mandou Jacó pegar dois cabritos do rebanho. Ela mesma ia cozinhar a comida do jeito que Isaú amava.

Jacó ia levar pro pai, fingindo ser Isaú, e receber a bênção no lugar do irmão. Jacó ficou com medo. Mas não medo de fazer errado. Medo de ser pego. Ele disse, mãe, o Isaú é peludo e eu sou liso. Se o meu pai me tocar, ele vai descobrir que sou eu. E em vez de bênção, eu vou receber maldição. E olha o que a mãe fez. Ela pegou as peles dos cabritos e amarrou nos braços e no pescoço do Jacó. Pra ele ficar peludo como o irmão. Vestiu nele as roupas do Isaú, que tinham o cheiro do campo, e mandou ele entrar. Para um segundo nessa cena, é de cortar o coração. O velho cego, na cama.

O filho disfarçado, com peles de bicho amarradas no corpo, segurando um prato de comida, prestes a mentir na cara do próprio pai. Jacó entra e diz, meu pai. Isaú responde, quem é você, meu filho? E Jacó mente. Ele diz, sou Isaú, o seu mais velho. Fiz o que você pediu. Levanta e come. Isaú desconfia. Ele diz, como você achou caça tão rápido, filho? E Jacó mente de novo e ainda usa o nome de Deus na mentira. Ele diz, foi Deus que pôs o animal no meu caminho. O velho ainda não tá convencido. Ele diz, chega mais perto, deixa eu te tocar, pra eu saber se você é mesmo o Isaú. Jacó chega perto, Isaú passa a mão nele, sente os braços peludos por causa das peles, e diz uma frase que é o resumo de toda a confusão.

Ele diz, a voz é a voz de Jacó, mas as mãos são as mãos de Isaú. A voz dizia uma coisa, as mãos diziam outra. E o velho, sem enxergar, confiou nas mãos. Ele perguntou mais uma vez, você é mesmo o meu filho Isaú? E Jacó respondeu pela última vez, sou. Então Isaú comeu. Pediu pro filho chegar perto e beijá-lo. Sentiu o cheiro das roupas do campo e deu a bênção. A bênção inteira, que a terra te defartura, que os povos te sirvam, que você seja Senhor sobre os seus irmãos. Tudo o que era pra ser do Isaú caiu em cima do Jacó. E Jacó saiu, mal ele saiu pela porta. Isaú chegou, voltando da caça, com a comida pronta.

Feliz, sem saber de nada. Ele entrou e disse, pai, levanta e come da minha caça pra me abençoar. E Isaú perguntou tremendo. Quem é você? Isaú respondeu. Sou eu, o seu filho, o seu primogênito Isaú. E o texto diz que Isaú foi tomado por um tremor violento. Um arrepio que sacudiu o corpo inteiro. Porque ele entendeu, na hora, o que tinha acontecido. Ele disse, então quem foi que caçou e me trouxe comida? E eu comi e abençoei. E a bênção vai ficar de pé. Aquele será abençoado. E Isaú. Isaú soltou um grito. O texto diz que ele gritou alto e amargo e implorou. Abençoei a mim também, meu pai, abençoei a mim também.

Mas não tinha mais bênção pra dar. A palavra já tinha sido dita e não voltava atrás. Isaú chorou e perguntou com raiva uma coisa que dói só de ouvir. Você só tinha uma bênção, meu pai, só uma? No fim, o velho deu a Isaú o que sobrou. Não foi promessa. Foi quase um aviso que ele ia viver pela espada longe da fartura e servir ao irmão por um tempo. E o capítulo fecha com Isaú guardando ódio do irmão no coração, esperando o pai morrer pra então matar o Jacó. Eu fico pensando muito nessa história, porque é fácil ler ela só como um roubo, um irmão esperto que enganou o outro.

E é isso, mas é mais que isso. Repara, ninguém sai limpo daqui, ninguém. O pai tinha um filho preferido e quis abençoar ele escondido, rápido, antes que alguém soubesse. A mãe armou a mentira. Jacó mentiu na cara do pai cego e, mais pra frente, você vai ver. Tudo isso ainda vai cobrar um preço altíssimo da família inteira. O que me pega é que essa não é uma história de mocinho e vilão. É uma história sobre uma casa onde as pessoas amavam errado, onde cada um puxava pro seu lado, escondia, manipulava. E o estrago disso não acabou naquele dia. Ele atravessou anos. Tem uma coisa silenciosa aqui que vale a pena sentir.

Quando o amor numa família vira disputa, quando começa, esse é o meu preferido, o segredo, o lado contra lado, quase sempre, alguém sai gritando atrás de uma porta, como o exaú. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa da sua família, ou bem próxima, com quem você anda comparando ou guardando alguma mágoa caladinha. Pode ser pequeno, um ciúme bobo, uma coisa que ficou atravessada. E hoje, só por hoje, faça uma única coisa boa por essa pessoa, sem cobrar nada em troca. Uma mensagem, uma ajuda, um elogio sincero. A história do Jacó e do exaú começou com uma família que disputava e levou anos pra essa ferida fechar.

Às vezes, a gente fecha a nossa com um gesto pequeno hoje, antes de virar grito.