O budismo e as suas crenças

Budismo · Temporada 1 · Episódio 2 de 8 — em ordem cronológica

Cristão, ateu ou cético: o budismo não se importa com sua fé. Ele pergunta sobre a flecha envenenada que está te matando agora.

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Transcrição

"Posso ser cristão e praticar budismo?" é a pergunta que todo mundo tem, mas metade não faz. A resposta curta é sim, e não porque o budismo seja politicamente correto ou queira agradar todo o mundo, mas porque ele faz perguntas completamente diferentes das outras tradições. As grandes religiões monoteístas partem de uma pergunta central, quem criou o universo. A existência de Deus é o fundamento, tudo mais é construído sobre ele. O budismo não começa com essa pergunta. Quando alguém perguntava à Buda sobre a origem do universo, sobre se há um criador, sobre o que acontece depois da morte, ele ficava em silêncio, ou respondia com outra pergunta.

Há uma história famosa chamada "A Parábola da Flecha". Um discípulo chamado "Malum Kiaputa" foi até Buda frustrado. Você nunca responde às grandes questões metafísicas. Se não vai me dizer se o universo é eterno ou não. Se a vida após a morte ou não, não continua como seu discípulo. Buda disse, suponha que você seja atingido por uma flecha envenenada. Seus amigos chamam um médico, mas você diz ao médico, não tira flecha até que eu saiba quem a atirou. Acorda a pele dele, o material do arco, o comprimento da flecha, o que aconteceria com você. Silêncio, você morreria, não porque as perguntas sejam inúteis, mas porque não são urgentes.

A flecha está no seu corpo agora, o sofrimento existe agora. Essa é a questão que importa resolver. O budismo é sobre a flecha, não sobre quem a fez. Um cristão pode meditar no estilo budista e continuar acreditando em Jesus? Sim, muitos padres e pastores ao redor do mundo fazem exatamente isso. A atenção ao momento presente, a compaixão, o desapego ao ego aparecem em todas as tradições. O budismo não possui essas qualidades, uma teu pode praticar? Completamente, o budismo não exige nenhuma crença sobrenatural, a neurociência passou as últimas décadas confirmando o que os monjes budistas descreviam há 2.500 anos sobre como a mente funciona.

É uma prática que funciona independente de fé, mas vale ser honesto, o budismo tem uma visão de mundo, ele assume que existe sofrimento, que o sofrimento tem causa, que essa causa pode ser entendida e que existe um caminho além disso. Essas não são afirmações sobre Deus. São afirmações sobre a experiência humana. Você pode verificar na sua própria vida, ou refutar. Se você observar sua mente com atenção suficiente, vai descobrir que o sofrimento que você sente raramente vem de fora. Vem de como você se relaciona com o que está fora. Isso não é religião, é observação.

Tich Nat Hanh, um dos monjes budistas mais conhecidos do século 20, disse certa vez, o budismo é uma forma de olhar profundamente. Se você já tem uma árvore, o budismo não pede que você arranque, ele oferece água para que ela cresça mais fundo, seja qual for a sua crença, ou a ausência dela, o que começa aqui é uma conversa entre você e a sua própria experiência. Hoje pense em uma crença que você tem sobre si mesmo. Sou ansioso, sou impaciente, sou assim, e observe só por hoje se essa crença é um fato, ou um hábito de pensamento.