O príncipe que nadou sete dias

Budismo · Temporada 23 · Episódio 1 de 1 — em ordem cronológica

Seu navio afundou no meio do oceano, sem terra à vista. Todos se afogaram, menos você: vai nadar ou vai desistir?

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Transcrição

O navio afundou no meio do oceano, não tem terra à vista em direção nenhuma, todos os outros se afogaram, e você está sozinho na água, sem saber pra que lado fica a salvação. Você nada, ou você desiste, como essa pergunta, a gente fecha a nossa temporada dos jatacas. Deixa eu te contar, nessa que é uma das histórias mais amadas da coleção, o futuro Buda nasceu como um príncipe chamado Marrajanaka. A família dele tinha perdido o trono numa disputa, e ele cresceu sabendo que pra reconquistar o que era seu por direito, ia precisar de recursos. Então tomou uma decisão ousada, juntou o pouco que tinha, embarcou num navio mercante e partiu pra uma terra distante, atrás de fortuna, pra depois voltar e recuperar o reino.

Só que o mar tinha outros planos. No meio da travessia, longe de qualquer costa, uma tempestade enorme despedaçou o navio, ele afundou, e os mercadores, a bordo, apavorados, fizeram o que a maioria de nós faria, choraram, gritaram pelos deuses, se debateram, imploraram por socorro, e um por um, exaustos, foram engolidos pelo mar. Marrajanaka fez diferente. Antes de o navio afundar de vez, ele comeu o quanto pôde, untou o corpo com óleo pra se proteger do frio da água, subiu no mastro mais alto, e no momento certo, saltou bem longe dos destroços pra não ser sugado junto, e começou a nadar.

Mas nadar pra onde? Esse é o ponto. Ele não fazia a menor ideia de onde ficava a terra mais próxima. Não havia costa à vista, não havia direção certa, não havia nenhuma garantia de que daquele lado, ou de qualquer lado, houvesse salvação. E mesmo assim ele nadou, um dia, dois dias, sem comida, sem descanso, sem ver nada além de água até o horizonte. Três, quatro, cinco dias, o corpo gritando, e nenhuma prova de que valia a pena continuar. No sétimo dia, uma deusa que protegia aquele oceano, chamada Manimekala, finalmente reparou nele. E curiosa, antes de ajudar, ela desceu e fez uma pergunta, uma pergunta que é o coração de toda a história.

"Homen, você está no meio do oceano, sem terra à vista, todos os outros já morreram. É loucura continuar nadando. Pra que tanto esforço, se você não tem como saber se há uma margem, porque você não desiste?" Uma rajanaca boiando exausto respondeu, "Olha em volta, eu já enxerguei o tamanho do mundo e o tamanho da minha força. Eu sei que talvez eu não chegue, mas eu sei de uma coisa, enquanto eu nadar, eu ainda tenho a chance de chegar. Se eu parar de nadar, aí sim eu não chego. É certo. O esforço é a única parte que depende de mim. Então eu vou cumprir a minha parte. Quem desiste no meio do oceano já se afogou antes da água chegar.

A deusa ficou tão admirada com aquela resposta, com aquela determinação que não pedia garantia nenhuma pra continuar, que o levantou nos braços e o conduziu em segurança até a terra do seu reino. E lá, com o tempo, a rajanaca reconquistou o trono. Agora, repara onde está a virtude dessa história, porque é fácil ler isso como uma fábula de sucesso. Ele se esforçou e por isso venceu. Mas não é bem isso que o Buda está dizendo. Olha de novo a resposta dele pra deusa. Ele não diz "eu vou conseguir", ele diz "eu não sei se vou conseguir" e nada assim mesmo. Essa é a diferença e é uma diferença enorme.

O budismo chama isso de viria, que a gente pode traduzir como energia, esforço, perseverança. E o ponto sutil é esse. O esforço correto não é o esforço que tem garantia de prêmio no final, é o esforço que a gente entrega porque é a nossa parte, independente do resultado. Majanaca separou as duas coisas que a gente vive embolando, o que depende dele nadar e o que não depende dele ter ou não ter uma margem do outro lado. Ele cuidou só do que era dele e soltou o resto e pensa em como a gente faz o contrário. A gente só topa nadar se alguém garantia a praia. A gente quer ver o resultado antes de fazer o esforço.

Vale a pena estudar. Só se eu tiver certeza de que passo. Vale a pena tentar essa relação, esse projeto, essa mudança. Só me garante primeiro que dá certo. E como ninguém garante, a gente boia parado, esperando a certeza que nunca vem. E boiar parado, no meio do oceano, é a única forma garantida de afundar. A deusa, repara, só apareceu no sétimo dia. Depois de seis dias de nado que pareciam completamente inúteis, se Majanaca tivesse desistido no terceiro dia, no quinto, na véspera, ninguém nunca saberia que a ajuda estava chegando. O socorro veio, mas veio para quem ainda estava nadando.

A graça encontra o esforço em movimento, nunca o desânimo parado. Aqui vai uma coisa para hoje. E ela fecha a nossa temporada. Pensa numa coisa que você parou de fazer porque ninguém te garantiu o resultado. Um projeto que você engavetou, um hábito que você largou, uma conversa que você não teve, um sonho que você achou grande demais e, só por hoje, dá uma abraçada. Uma, não a obra inteira não a garantia de chegar. Só a próxima abraçada, a parte que depende de você, sem exigir ver a praia primeiro. Porque essa é talvez a herança de todos esses contos. O rei dos macacos virou ponte sem saber se salvaria todos.

O elefante deu as presas sem saber se seria lembrado. E Majanaca nadou sete dias sem ver a terra. Nenhum deles teve garantia. Todos fizeram a sua parte assim mesmo. E é isso que um jataca no fim está sempre dizendo para a gente. Faz a tua parte com tudo o que você tem e deixa o oceano ser oceano. A margem, quando vier, vem para quem não parou de nadar.