Abraão intercede por Sodoma · Gênesis 18:16–33

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 17 de 37 — em ordem cronológica

Ele não rezou, ele barganhou. Um homem de pó desafiou Deus, negociando o destino de milhares.

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Transcrição

Um homem está discutindo com Deus, de verdade, cara a cara, peixinchando, como quem barganha num mercado. E o assunto da discussão é o seguinte, vale a pena destruir uma cidade inteira de gente má se tiver algumas poucas pessoas boas no meio? E o mais incrível é que Deus deixa ele discutir, deixa eu te situar. O abraão tinha acabado de receber três visitantes na tenda dele, tinha ouvido a promessa de que ia ter um filho, e agora esses visitantes se levantam pra ir embora e olham pra baixo, na direção de uma cidade lá no Vale, uma cidade chamada Sodoma, e o abraão caminha um pouco com eles pra acompanhar a saída como manda a boa educação.

E aí o texto faz uma coisa muito interessante. Deus para e pensa, quase em voz alta. Ele diz, será que eu vou esconder do abraão o que eu estou pra fazer? Como quem decide contar um segredo pra um amigo de confiança antes de agir. E aí Deus conta. Ele diz que chegou até ele um clamor muito grande contra a Sodoma e a cidade vizinha Gomorra, que a maldade daquele lugar era enorme, e que ele vai descer pra ver com os próprios olhos se as coisas são tão ruins quanto dizem. Os dois visitantes começam a descer em direção à cidade, mas o abraão fica pra trás, parado diante de Deus. E é aqui que começa uma das cenas mais corajosas da Bíblia inteira, porque o abraão sabe que tem gente boa morando naquela cidade.

O sobrinho dele, o Ló, mora lá com a família, e o abraão se aproxima e faz uma pergunta que poucos teriam coragem de fazer. Ele diz, o Senhor vai mesmo destruir o justo junto com o culpado, e se tiver 50 pessoas boas dentro da cidade, você vai varrer tudo sem poupar o lugar por causa dessas 50? E aí ele fala uma frase que é quase um soco. Ele diz, longe de ti fazer uma coisa dessas, matar o bom junto com o mal, tratando os dois do mesmo jeito. Longe de ti. O juiz de toda a terra não vai fazer justiça? Repara na ousadia. Ele está quase cobrando de Deus que Deus seja justo, um homem feito de pó, falando com o dono do universo dizendo, isso não combina com você.

E Deus responde com calma. Se eu achar 50 pessoas boas em sua doma, eu poupo a cidade inteira por causa delas. E aqui começa a barganha. Porque o abraão se anima e começa a negociar devagar com cuidado. Ele diz, olha, eu sei que eu não passo de pó e cinza, eu não sou ninguém para ficar falando com o Senhor, mas, e se faltar em 5 para completar os 50? Se forem só 45, você destrói tudo por causa de 5? E Deus responde, não, se eu achar 45, eu não destruo. E, o abraão continua, esse forem 40? Por causa dos 40 eu não faço, o abraão insiste, ele pede, não fica bravo comigo, mas, e se forem 30? Não destruo se achar 30? E ele segue.

20, por causa dos 20, eu poupo. E aí o abraão chega no limite da própria coragem. Ele diz, que o Senhor não se irrite, eu vou falar só mais uma vez, e se achar em 10? Só 10 pessoas boas? E Deus responde, por causa dos 10, eu não destruo a cidade, 10. Ele começou em 50 e chegou em 10. E a cada passo, Deus disse sim, e aí a conversa acaba. O texto diz simplesmente, e o Senhor seguiu o seu caminho, e o abraão voltou para casa. Eu preciso parar nessa cena, porque ela é muito estranha e muito linda ao mesmo tempo. Reparem três coisas, a primeira. O abraão não estava pedindo nada para ele mesmo, ele não ia ganhar nada com aquilo, ele estava intercedendo.

Essa é uma palavra bonita, intercedendo, quer dizer, falar por outra pessoa, se colocar no meio, pedir por quem não está ali, para pedir por si. O abraão estava se metendo no meio, em favor de gente que ele nem conhecia direito, de uma cidade que nem era dele. A segunda coisa, olha a humildade do jeito dele. Ele não chega gritando, não chega exigindo, ele chega dizendo, eu não passo de pó e cinza. E ao mesmo tempo, com essa humildade toda, ele tem a ousadia de discutir, de insistir, de empurrar o limite. O humilde e corajoso ao mesmo tempo, não é uma coisa ou outra, é as duas juntas.

E a terceira coisa, que é a que mais me pega, Deus deixa. Deus não manda ele calar a boca, Deus não diz quem é você para questionar minhas decisões. Deus entra na conversa, responde uma por uma, como se quisesse aquele diálogo, como se gostasse de ser questionado por alguém que se importa com a justiça. E tem um detalhe que me toca de verdade. Foi o Abraão que parou de pedir, ele parou nos dez. Deus nunca disse chega, quem chegou no limite foi o homem, não Deus. Fica a pergunta no ar. E se o Abraão tivesse pedido por cinco, por um, eu acho que essa história diz uma coisa sobre o peso de poucas pessoas boas, sobre como um punhado de gente decente pode sozinha segurar o desabamento de um lugar inteiro.

A gente costuma achar que para mudar as coisas precisa ser maioria. Essa história sugere o contrário, que às vezes dez bastam. Às vezes um basta para falar pelos outros. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa em alguém que não está na sala. Alguém que não pode falar por si nesse momento. Pode ser um colega que está sendo mal falado quando ele não está presente. Alguém esquecido. Alguém julgado de longe por gente que nem conhece a história dele. E hoje numa única situação, faça o que o Abraão fez. Fala por essa pessoa. Quando o assunto dela surgir e ela não estiver ali para se defender, seja a voz que diz "Espera, tem mais coisa nessa história".

Intercede. Você não precisa ganhar a discussão. O Abraão também não salvou a cidade no fim. Mas ele ficou ali, parado diante de Deus, falando por quem não estava. E isso por si só já diz muito sobre o tipo de homem que ele era.