Uma mulher perde o marido, depois perde os dois filhos, fica sozinha num país que não é o dela, sem ninguém pra cuidar dela, e quando ela decide voltar pra casa, sozinha e quebrada, alguém se recusa a deixar ela ir embora sem companhia. Deixa eu te contar essa história, porque ela é uma das mais bonitas e mais tristes da Bíblia inteira. E começa com fome, tinha um tempo em Israel em que faltou comida. Uma seca grande, a terra secou, as plantações não deram nada, e as famílias começaram a passar fome, e uma família decidiu ir embora. Um homem chamado Elimelec, a mulher dele, a Noemi, e os dois filhos do casal.
Eles saíram de Belém, a cidade deles, e foram morar num país vizinho chamado Moabi. Um lugar onde tinha comida, era pra ser uma coisa temporária, só passar a fome e voltar. Mas a vida tinha outros planos, primeiro o marido da Noemi morreu, o Elimelec, e ela ficou ali viúva num país estrangeiro, com os dois filhos. Os filhos cresceram e casaram, casaram com duas moças daquele lugar, de Moabi. Uma se chamava Orfa, a outra se chamava Ruti, por uns dez anos, a vida seguiu, não era a terra deles, mas era uma vida, tinha família, tinha companhia, e aí veio o pior. Os dois filhos da Noemi morreram também, os dois, para um se pensa no que sobrou.
A Noemi tinha saído de casa com um marido e dois filhos, agora ela não tinha mais nenhum, três sepulturas num país que não era o dela, e três mulheres sozinhas, ela e as duas noras, a Orfa e a Ruti, naquele tempo, uma mulher sem marido e sem filhos não tinha quase nada, não tinha quem trabalhasse por ela, quem a protegesse, quem garantisse o pão, ser viúva e sem filhos era ser uma das pessoas mais frágeis que existiam. E a Noemi era estrangeira ali por cima, longe da terra dela, sem o povo dela, foi quando ela ouviu uma notícia, lá em Belém a terra dela a fome tinha passado, voltou a chover, a terra voltou a dar comida, e a Noemi tomou uma decisão, ela ia voltar para casa, para Belém, para perto do povo dela, ela arrumou as coisas e começou a caminhar de volta, e as duas noras, a Orfa e a Ruti, começaram a ir com ela, mas no meio do caminho a Noemi parou e fez uma coisa generosa, ela se virou para elas e disse, mais ou menos assim, voltem, voltem cada uma para casa da sua mãe, vocês são jovens, foram boas comigo e foram boas com os meus filhos, que Deus seja bom com vocês, voltem, encontrem um novo marido, refaçam a vida, repara no que ela está fazendo, a Noemi está oferecendo o que ela mais precisava, companhia, para dar a essas moças uma chance de futuro, ela está sozinha e mesmo assim manda elas embora, pro bem delas, e ela beijou as duas, e todas começaram a chorar, as moças disseram, não, a gente volta com você, pro teu povo, mas a Noemi insistiu, ela disse, porque, o que vocês vão ganhar comigo, eu não tenho mais filhos para vocês casarem, eu sou velha, não tenho mais nada para oferecer, a minha vida ficou amarga, voltem, e aí a história se divide em duas, a orfa, chorando, beijou a sogra, e voltou, e ninguém pode culpar a orfa, ela fez o que era sensato, voltou para casa dela, para a família dela, para uma chance de vida nova, era o certo a fazer, mas a Ruth não, a Ruth se agarrou na Noemi, não soltou, e a Noemi tentou de novo, olha, a tua cunhada já voltou para o povo dela e para os deuses dela, vai com ela, volta também, e aqui a Ruth diz uma coisa tão bonita que as pessoas repetem ela até hoje, mais de 3 mil anos depois, ela disse, mais ou menos assim, não me peça para te deixar, não me peça para voltar e te abandonar, porque para onde você for, eu vou, onde você ficar eu fico, o teu povo vai ser o meu povo, e o teu Deus vai ser o meu Deus, onde você morrer, eu vou morrer, e ali vou ser enterrada, só a morte vai conseguir me separar de você, para absorver isso, a Ruth não tinha nenhuma obrigação, o marido dela já tinha morrido, ela era livre, podia voltar para casa dos pais, para o país dela, para os costumes dela, e recomeçar, mas ela escolheu uma velha sem dinheiro, sem futuro, amargurada, de outro povo, escolheu a estrada difícil, ao lado de alguém que não tinha nada para dar de volta, por puro amor, por lealdade, e quando a Noemi viu que a Ruth estava decidida de verdade, ela parou de insistir, e as duas seguiram juntas, caminhando até Belém, quando chegaram, a cidade inteira se mexeu, as mulheres olhavam e perguntavam, espantadas, essa não é a Noemi, e a Noemi, machucada por dentro, respondeu uma coisa dura, ela disse, não me chame mais de Noemi, porque Noemi quer dizer doçura, agradável, me chamem de Mara, porque Mara quer dizer amarga, eu saí daqui cheia, com marido e filhos, e voltei vazia, ela estava com um coração em pedaços, saiu com uma família, e voltou com nada, pelo menos era assim que ela enxergava, só que ela não voltou vazia, não mesmo, ao lado dela, em silêncio estava Ruth, a moça que tinha largado tudo para não deixar ela sozinha, e o texto termina o capítulo com um detalhe pequeno, quase escondido, mas importante, diz que elas chegaram a Belém bem no começo da colheita da Sevada, ou seja, começo de comida, começo de esperança, bem na hora em que tudo parecia acabado, alguma coisa estava recomeçando, e é aqui que eu paro para pensar.
O que mais me pega nessa história é a lealdade da Ruth, mas é uma lealdade de um tipo específico, não é a lealdade fácil, de quando todo mundo está bem e tem coisa para ganhar, é a lealdade do pior momento, a Ruth escolheu ficar exatamente quando ficar não trazia nenhuma vantagem, a Noemi não tinha dinheiro, não tinha futuro, não tinha nem ânimo, estava amargurada, e mesmo assim a Ruth escolheu carregar essa dor junto, acho que a gente descobre quem realmente fica com a gente nos momentos em que não tem nada para oferecer de volta, quando está tudo bem, é fácil ter gente por perto, o teste é o dia ruim, o luto, a perda, o vazio, e quem fica ali sem ganhar nada, só para você não estar sozinho, essa pessoa é rara, é preciosa, aqui vai uma coisa para hoje.
Pensa em alguém que está passando por um momento difícil, alguém que talvez tenha ficado mais quieto, mais sumido, mais para baixo, uma pessoa que talvez não tenha muito pra te dar agora, porque está no meio de uma dor, e hoje, só hoje, faz uma coisa simples, manda uma mensagem, liga, ou só fica perto sem precisar resolver nada, sem precisar dizer a coisa certa, porque às vezes a pessoa nem precisa que você conserte o problema dela, ela só precisa não estar sozinha na estrada, e essa frase da Ruth, onde você for eu vou, não precisa ser dita com palavras bonitas, ela se diz na maior parte das vezes só com a presença, só ficando.