Um caçador atravessa a floresta inteira para te matar. Crava em você uma flecha envenenada. E você descobre que ele só veio porque alguém o mandou. O que você faz com esse homem? A resposta desse elefante é uma das coisas mais difíceis que o budismo já pediu de alguém. Deixa eu te contar. Nessa vida passada, o futuro Buda nasceu como um elefante, mas um elefante extraordinário. Branco, imenso, rei de uma manada e com seis presas que brilhavam com as cores do arco-íris. Ele vivia perto de um grande lago, em paz, e tinha duas companheiras. Um dia, num passeio pela floresta, ele sacudiu sem querer um galho florido e as flores caíram em cima de uma de suas companheiras, mas as folhas secas e as formigas caíram na outra.
Foi um acaso, sem nenhuma intenção. Mas a segunda companheira não viu assim. Ela achou que tinha sido desprezada, humilhada. E aquele pequeno ressentimento, em vez de passar, foi crescendo por dentro dela. Virou mágoa, virou ódio, e ela alimentou esse ódio em silêncio, dia após dia. Tanto que, ao morrer, ela renasceu como rainha de um reino humano e trouxe a mágoa de volta com ela, gravada no fundo da memória. Já rainha, ela fingiu estar gravemente doente e disse ao rei que só sararia se realizasse um sonho. Sonhei com um elefante branco de seis presas que brilham como arco-íris, ela disse.
"Eu preciso das presas dele", mande um caçador buscá-las, convocaram um caçador mais implacável do reino. Ele viajou meses, atravessou florestas que ninguém atravessa até chegar ao território do grande elefante. Ali cavou um buraco e se escondeu, vestido com um manto amarelo, o manto dos monges, dos santos. E quando o elefante passou, o caçador disparou. De baixo pra cima, uma flecha envenenada que rasgou fundo a carne do animal. A dor foi monstruosa. E o primeiro impulso do elefante, é claro, foi de fúria. Um bicho daquele tamanho, ferido, poderia esmagar o caçador num único pisão.
Ele procurou de onde tinha vindo a flecha. E viu o homem, pequeno encolhido no buraco, coberto pelo manto amarelo e aqui a história vira. O elefante parou, olhou pro manto cor de açafrão, o manto de quem renuncia ao mundo, de quem busca a libertação. E em vez de atacar, ele perguntou com a voz já fraca pelo veneno, "Por quê? Por que você me feriu o que eu te fiz?" O caçador, tremendo, confessou tudo. A rainha, as presas, a ordem. "Eu não tenho nada contra você", disse ele. "Eu vim por dinheiro, por ordem. As suas presas é que são o meu pagamento." E o elefante, em agonia, sangrando, fez uma coisa que ninguém esperava.
Ele não sentiu ódio. Ele sentiu compaixão. Pensou, esse homem é só um instrumento de uma dor que nem é dele. E se ele voltar de mãos vazias, será morto. Então o elefante disse, "Está bem, pega as minhas presas, aproxima-te sem medo". O caçador se aproximou e tentou cerrar as presas. Mas não conseguia, eram duras demais e o homem era pequeno demais. Vendo o esforço inútil, o elefante, ele mesmo, pegou a serra com a tromba e cortou as próprias presas. Ele entregou nas mãos do caçador e, antes de tombar, disse que dava aquilo de bom grado que não havia ódio no seu coração, que se houvesse algum mérito naquele gesto, naquele dar até o fim que esse mérito levasse um dia a despertar e a libertar todos os seres do sofrimento.
E então o grande elefante morreu sem uma gota de rancor. Agora eu sei o que essa história provoca. Ela é dura, tem gente que escuta isso e pensa, mas isso é demais, isso é deixar-te matar em sem reagir. Então repara no que o jataca está e no que não está dizendo. Ele não está dizendo que você deve se deixar destruir. Está dizendo uma coisa mais sutil e mais radical sobre o ódio. Repara na cadeia inteira. Tudo começou com um galho de flores que caiu errado. Um nada. Um acaso sem maldade nenhuma. E a companheira escolheu interpretar aquele nada como ofensa. Alimentou. Guardou. Levou para outra vida e o ódio dela, partindo de uma bobagem, atravessou a morte, montou um reino, contratou um caçador e voltou como flecha.
Essa é a anatomia do ódio segundo o budismo. Ele nasce pequeno, ele se alimenta de interpretação e ele cresce sem limite se a gente der comida. E o elefante é o oposto exato dessa cadeia. Ele teve todos os motivos do mundo para odiar. Estava certíssimo do nosso ponto de vista em odiar e mesmo assim, no momento de máximador, ele cortou a corrente, ele não devolveu a flecha, olhou para o caçador e enxergou não um inimigo, mas um homem preso na dor de outra pessoa. E há um verso, lado da mapada, que é o resumo disso. O ódio nunca cessa pelo ódio, só pelo amor o ódio cessa, alguém em algum ponto da corrente precisa parar de passar a flecha adiante.
O elefante foi esse alguém. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa mágoa que você está carregando. Talvez uma antiga, dessas que você nem lembra direito como começou. E faz duas perguntas. Primeira, lá no início, o que aconteceu foi mesmo tão grande, ou foi um galho de flores que eu escolhi ler como ofensa. Segunda, quanto da minha energia, hoje, ainda está sendo gasta para manter esse ódio vivo. Não estou pedindo para você virar santo, nem para fingir que não dueu. Estou pedindo só para você reparar no peso da serra que você carrega. Porque o elefante entregou as presas e morreu leve.
E muita gente segura o rancor a vida inteira, achando que está ferindo o outro, quando na verdade é a própria carne que o veneno vai consumindo, devagar, por dentro. Largar o ódio não é fazer um favor para quem te feriu, é tirar a flecha de dentro de você.