Sansão e Dalila · Juízes 14:1–16:31

A Biblia · Temporada 4 · Episódio 13 de 13 — em ordem cronológica

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Transcrição

O homem mais forte do mundo, tão forte que matou um leão com as próprias mãos, tão forte que ninguém conseguia prender ele, e mesmo assim, ele foi derrubado. Não por um exército, não por uma arma, mas por uma pessoa que dormia ao lado dele, que dizia que o amava, e que, a cada noite, perguntava o segredo da força dele para poder entregar ele. Edelmi, essa é a história de uma das maiores traições que já foi contada. Deixa eu te contar. Você lembra do Sansão, aquele bebê tão esperado que nasceu com uma promessa que era dedicado a Deus e que por isso nunca podia cortar o cabelo, pois é nesse cabelo que mora o segredo de tudo.

O Sansão cresceu e virou um homem de uma força absurda, sobre-humana. A força dele vinha de Deus e estava ligada àquela promessa do cabelo. Enquanto o cabelo estivesse ali entocado, a força estava com ele. E o Sansão fez coisas impressionantes. Uma vez, um leão veio para cima dele rugindo e ele despedaçou o leão com as mãos, como se fosse um cabritinho. Outra vez, sozinho, ele derrotou mil homens dos Filisteus, os inimigos do povo dele, mil homens, um homem só. Os Filisteus tinham pavor dele e ódio, porque por anos esse homem foi uma dor de cabeça para eles. Eles tentaram pegar ele várias vezes e sempre falhavam.

A força dele era grande demais, mas o Sansão tinha um ponto fraco e o ponto fraco dele não era o corpo, era o coração. Ele se apaixonou por uma mulher chamada Dalila e os chefes dos Filisteus viram nisso a chance que eles esperavam há anos. Eles foram até a Dalila, com uma proposta. Eles disseram, descobre para a gente de onde vem a força desse homem, descobre o segredo e como a gente pode amarrar ele e dominar ele e se você fizer isso, cada um de nós vai te dar uma pilha de dinheiro em prata, a um cesse. Eles estavam pagando ela para trair o homem que a amava e ela aceitou e aí começa uma das cenas mais cruéis e tensas da Bíblia inteira, porque ela não fez de uma vez, ela fez aos poucos, noite após noite, a Dalila vai para o Sansão e pergunta, toda carinhosa, me conta, qual é o segredo da sua força tão grande, como alguém poderia te amarrar e te dominar.

Ele diz que o Sansão, esperto, não conta a verdade, ele inventa, ele diz, se me amarrarem com sete cordas novas, ainda úmidas, eu fico fraco como qualquer um e olha o que acontece. Enquanto ele dorme, a Dalila amarra ele com sete cordas novas e tinha homens escondidos esperando para pegar ele e ela grita, Sansão, os Filisteus estão vindo e ele acorda e arrebenta as cordas como se fossem fios de nada, repara no que tinha acabado de acontecer, ela amarrou ele, tinha homens escondidos para capturar ele, ela traiu ele bem na cara dele e mesmo assim o Sansão fica, não desconfia ou desconfia e ignora e aí é que dói, porque ela tenta de novo e de novo, ela reclama, você mentiu para mim, zombou de mim, me conta de verdade e o Sansão inventa outra mentira, diz, me amarra com cordas novas que nunca foram usadas e ela faz, de novo tem homens escondidos, de novo ela grita que os inimigos chegaram e de novo ele arrebenta tudo como se fosse linha e ela insiste de novo uma terceira vez e ele inventa uma terceira mentira sobre o cabelo dele preso num tiar e de novo é mentira e de novo ela tenta entregar ele, pensa nisso, três vezes ela tentou entregar ele para os inimigos, três vezes ele viu com os próprios olhos que ela estava trabalhando para destruir ele e mesmo assim ele continuou ali, cego pelo que sentia por ela e aí a Dalila usa a arma mais cruel de todas, ela usa o amor dele contra ele, ela começa a dizer, todo dia, como você pode dizer que me ama, se você não confia em mim, você já mentiu para mim três vezes, se você me amasse de verdade, você me contaria e o texto diz uma coisa pesada, diz que ela apertou ele com palavras todos os dias, insistindo, cobrando, chorando, até que a alma dele ficou cansada de morte, cansado até a alma, sem forças por dentro, não por fora, e o Sansão cede, ele conta tudo, ele abre o coração e diz a verdade, nunca passou na valha na minha cabeça, eu sou dedicado a Deus desde que nasci, se cortarem o meu cabelo, a minha força vai embora e eu vou ficar fraco como qualquer outro homem, ele entregou o segredo da vida dele para a pessoa que mais queria destruir ele e a Dalila percebe, dessa vez, que ele falou a verdade, ela manda chamar os chefes dos Filisteus, eles vêm trazendo dinheiro e naquela noite, ela faz o Sansão dormir no colo dela e enquanto ele dorme tranquilo, confiante em paz, achando que estava seguro nos braços de quem ele amava, ela manda um homem cortar o cabelo dele e a força vai embora, silenciosamente, enquanto ele dorme e ela grita, mais uma vez, Sansão, os Filisteus estão vindo, e ele acorda e pensa, vou me livrar como das outras vezes, vou me sacudir e ficar livre, mas o texto diz a frase mais triste da história inteira, diz, e ele não sabia que Deus tinha se afastado dele, ele não sabia, achou que a força ainda estava ali e não estava, os Filisteus pegam ele, fácil, dessa vez, e fazem com ele coisas terríveis, eles furam os olhos do Sansão, o homem mais forte do mundo, agora cego, acorrentam ele e botam ele para trabalhar girando um moinho como um animal, aquele que era livre e poderoso, virou prisioneiro, cego, escravo, humilhado, é um fundo de poço, não dá para cair mais baixo que isso, mas tem um detalhe que o texto deixa escapar, quase de leve, ele diz, e o cabelo dele começou a crescer de novo, devagarzinho, enquanto ele girava o moinho, no escuro, humilhado, o cabelo ia crescendo, e aí chega o dia em que os Filisteus fazem uma festa enorme para comemorar, para agradecer ao Deus deles por ter entregado o Sansão, e milhares de pessoas se juntam num templo gigante, e para rir dele, para debochar, eles trazem o Sansão, cego, para o meio da festa, para ser motivo de chacota, e o Sansão pede para o menino que o guiava uma coisa simples, ele diz, me leva até as colunas que sustentam esse templo, deixe-me encostar nelas, e ali, no meio do barulho, da festa, da humilhação, o Sansão faz uma oração, a última, ele pede a Deus, lembra de mim, me dá força uma vez mais, só mais uma vez, e ele põe as duas mãos nas duas colunas centrais do templo, as que seguravam tudo, e ele empurra, com toda a força que voltou, e diz, que eu morra com os Filisteus, e o templo inteiro desabar, as colunas cedem, o teto cai, e a construção toda vem abaixo, sobre todos que estavam ali, e o Sansão morre junto, e o texto diz que, na morte dele, ele derrotou mais inimigos do que tinha derrotado em toda a vida, é um final trágico, ele morre, mas morre fazendo, no fim, aquilo pra que tinha nascido, e aqui eu paro pra pensar, porque tem muita coisa nessa história, o que mais me pega não é a força do Sansão, é a fraqueza dele, porque o homem mais forte do mundo não foi derrubado por falta de músculo, foi derrubado porque ficou perto, todo dia de uma coisa que ele sabia que tava errada, e não saiu, repara nisso, ele viu a Dalila tentar entregar nele três vezes, três, ele sabia, não foi enganado por uma traição escondida, a traição estava na cara dele repetida, dia após dia, e ele ficou, achando que dava conta, que aquilo não ia chegar nele, e acho que isso fala com a gente de um jeito bem direto, as vezes a gente sabe que tem alguma coisa que tá nos puxando pra baixo, uma pessoa, um hábito, um lugar, uma situação, a gente vê os sinais, a gente sente, e mesmo assim a gente fica, a gente acha que é forte o bastante pra conviver com aquilo sem ser machucado, a história do Sansão mostra que a força mais incrível do mundo não protege a gente daquilo que a gente escolhe ficar perto todo dia, o cansaço da insistência derrubou que nenhum exército derrubou, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que você já sabe que não te faz bem, não precisa ser nada enorme, pode ser uma conversa que sempre te deixa pra baixo, um costume que você sabe que te puxa, uma situação que lá no fundo você já percebeu que não é saudável, e hoje, só hoje, em vez de achar que você é forte o bastante pra aguentar aquilo sem ser afetado, repara numa coisa diferente, repara em quantas vezes você já viu o sinal, quantas vezes aquilo já te machucou, e você ficou mesmo assim, você não precisa mudar tudo agora, só perceber, perceber a diferença entre o que de fato te faz bem, e o que você só insiste em ficar perto, achando que dá conta, porque as vezes a coisa mais forte que existe não é aguentar, é ter a coragem de sair antes que o cabelo seja cortado enquanto a gente dorme.