Imagina a porta de um barco se fechando, e do lado de fora, o céu começa a escurecer. Tudo o que você conhece sua casa, sua rua, as pessoas, os bichos, o mundo inteiro está prestes a sumir embaixo da água, e você está trancado dentro de um barco de madeira, com a sua família e um monte de animais, esperando a Bíblia conta que foi assim que o mundo quase acabou, e que recomeçou. Deixa eu te contar como foi. Lembra do Noé. No episódio passado, a gente viu que o mundo tinha virado a bússola para o lado errado, que a maldade tinha crescido demais, e que Deus decidiu recomeçar. E lembra que tinha um homem, um só, que andava na outra direção.
Noé, o homem que andou com Deus. Deus mandou ele construir um barco gigante. E Noé construiu, sem discutir, sem pedir prova, um prego de cada vez. Agora o barco está pronto, e chega a hora. Deus fala com Noé de novo, diz para ele entrar na arca, é esse o nome do barco arca. Diz, entra, você e toda a sua família, porque eu vi que no meio dessa geração toda, você é o único justo diante de mim. E dá as instruções dos animais. Aqui o texto dá um detalhe interessante. De alguns animais, Noé devia levar um casalzinho, um macho e uma fêmea. Mas de certos animais, os que eram considerados limpos, próprios para a oferta, ele devia levar mais, sete casais de cada, e também das aves do céu, para que a espécie não sumisse da face da terra.
E Deus avisa o prazo. Diz, daqui a sete dias, eu vou fazer chover. E vai chover por quarenta dias e quarenta noites. E vou apagar da face da terra tudo o que tem vida e o que eu fiz. Quarenta dias e quarenta noites. E o texto diz uma frase que já virou costume nessa história. E Noé fez tudo exatamente como Deus tinha ordenado. De novo, sem discutir, ele entra. E olha o detalhe da idade. O texto diz que Noé tinha seiscentos anos quando o dilúvio veio. Lembra dos números enormes lá da lista de gerações? Pois é, seiscentos anos, e então a família entra. Noé, a esposa dele, os três filhos, Sen, Can e Jafé, e as três esposas dos filhos.
Oito pessoas, só oito. É essa a humanidade inteira que vai sobrar. E os animais entram. O texto descreve essa cena com um cuidado bonito. Diz que eles vieram dois a dois, macho e fêmea de toda espécie. Os animais selvagens, os domésticos, os que rastejam pelo chão, as aves. Todos entrando na arca, em fila, para ficar vivos. Pensa nessa imagem. Uma processão de bichos de todo tipo, subindo a rampa de um barco enorme, enquanto o céu ainda está seco. E aí vem uma das frases mais marcantes do capítulo. Depois que todos entraram, o texto diz. E o Senhor fechou a porta atrás dele. Deus fechou a porta.
Não foi noé. Foi Deus. Como quem cuida de cada detalhe. Como quem fecha a porta do quarto de um filho que vai dormir. A última coisa antes da tempestade foi um gesto de cuidado. E então a água vem. E olha como o texto descreve. Não é só chuva. Ele diz que naquele dia se romperam todas as fontes do fundo da terra e que as comportas do céu se abriram, para nessa imagem. É a água vindo de cima e a água vindo de baixo. Como se o mundo todo, que lá no comecinho da Bíblia, tinha sido separado as águas de cima e as águas de baixo agora se juntasse de novo. Como se a criação estivesse sendo desfeita.
Voltando para o caos do começo. E choveu. Quarenta dias e quarenta noites. Sem parar. A água foi subindo. Devagar primeiro. Depois cada vez mais. O texto diz que ela cobriu o chão. Depois subiu mais. E a arca, que estava em terra, começou a boiar levantada pela água. Depois subiu mais ainda e cobriu os montes. Até as montanhas mais altas ficaram debaixo da água. Tudo o que tinha fôlego de vida em terra firme morreu. As pessoas, os bichos, as aves, o texto não suaviza isso. Ele diz com todas as letras que tudo o que vivia fora da arca foi apagado da terra. Só restou noé e os que estavam com ele na arca.
Oito pessoas, um barco e um mundo inteiro de água. E o texto fecha esse trecho com um número. diz que as águas ficaram fortes sobre a terra por cento e cinquenta dias. Cento e cinquenta dias. Pensa nisso. Não foram só os quarenta dias de chuva. Depois que a chuva parou, a água ficou ali, cobrindo tudo, por meses. A arca boiando, sem terra à vista em nenhuma direção. Só água, até onde os olhos alcançavam. Imagina o silêncio lá dentro. Imagina a espera. Não saber quando ia acabar. Não saber se ia acabar. Eu fico pensando muito nessa história. Porque é fácil olhar para ela como um conto de chuva e de bichos num barco.
A gente até desenha isso para criança, todo colorido. Mas no fundo essa é uma história pesada. É a história de um mundo inteiro sendo apagado. E de uma família minúscula flutuando no meio disso. Sem ter para onde ir, sem saber se um dia ia parar. E o que me pega não é a tempestade. É a espera depois dela. Porque a parte difícil da fé do noé não foi construir o barco. Foi ficar dentro dele. Foi aguentar 150 dias boiando no nada, sem sinal de terra, confiando que aquilo um dia ia ter fim. Sem poder fazer nada além de esperar. A gente costuma achar que a coragem é fazer a coisa grande.
Construir o barco. Tomar a decisão. Mas tem uma coragem mais quieta, mais difícil, que é aguentar o tempo entre a decisão e o resultado. O tempo em que tudo ainda está debaixo d'água e você não enxerga a terra em lugar nenhum. E tem um detalhe que me segura. Foi Deus quem fechou a porta. No meio de tudo aquilo, a última coisa que aconteceu antes do caos foi um gesto de quem cuida. Como se o recado fosse "você não está sozinho aí dentro, eu fechei essa porta, eu sei que você está aí". Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa na sua vida que você já decidiu, já começou, mas que ainda está naquele meio difícil, naqueles 150 dias boiando, sem ver terra.
Pode ser um tratamento, um estudo, uma mudança. Uma coisa que você plantou e que ainda não deu fruto nenhum. E hoje, só por hoje, em vez de exigir o resultado, faça uma coisa só, continue dentro do barco. Faça a pequena parte que cabe nesse dia e deixe o resto para amanhã. A água um dia baixa, a arca do noé baixou, mas no meio dela a única coisa que dava para fazer era aguentar mais um dia com a porta fechada. Às vezes a maior prova de fé não é começar, é ficar.