Tem uma pessoa na sua vida que você acha quase impossível de gostar. Você nem precisa pensar muito. O nome já apareceu na sua cabeça. Agora segura essa pessoa por um instante. A gente vai voltar nela no fim. Porque hoje a gente vai falar de uma meditação que parece simples, quase ingenua, mas que é uma das mais transformadoras que o budismo já criou. Ela se chama Metabahamana, o cultivo do amor bondade. Deixa eu te explicar o que é isso. Meta é uma palavra em palí. A língua antiga dos primeiros textos budistas. E ela é difícil de traduzir com uma palavra só. A gente costuma dizer amor bondade, mas não é amor romântico.
Não é paixão. Não é aquele amor que quer algo de volta. Meta é mais parecido com o desejo sincero de que alguém esteja bem. Sem condição. Sem cobrança. É olhar para uma pessoa. Qualquer pessoa. E desejar de coração. Que você seja feliz. Que você viva em paz. Que você não sofre. E Bahama quer dizer cultivo. Desenvolvimento. Como quem rega uma planta todo dia. Então Metabahama é, literalmente, o cultivo do amor bondade. É treinar o coração para sentir isso de propósito. E aqui já vem a primeira coisa que surpreende as pessoas. A bondade, nessa tradição, não é só um sentimento que aparece ou não aparece.
É uma habilidade. Uma coisa que dá para treinar. Como um músculo. Você não espera ter vontade para ir na academia. Você vai e a força vem com a prática. Meta é a mesma coisa. Você não espera sentir amor por todo mundo. Você pratica e o coração vai abrindo aos poucos. E como é que se pratica isso? A meditação clássica da Meta tem uma forma muito bonita. Ela funciona em círculos que vão se abrindo. Como uma pedra que cai na água e vai fazendo ondas cada vez maiores. E o primeiro círculo, o centro de tudo, é você mesmo. Isso pega muita gente de surpresa. A gente acha que bondade é sempre para os outros.
Mas o Buda ensinava que ninguém no mundo inteiro merece o seu amor mais do que você mesmo. E que é praticamente impossível desejar de verdade o bem dos outros se você vive se maltratando por dentro. Então a prática começa em você. Você se acomoda, fecha os olhos, respira, e em silêncio com calma, você repete para si mesmo algumas frases simples que eu esteja bem, que eu esteja em paz, que eu seja feliz, que eu esteja livre do sofrimento. E você não fica analisando se merece ou não, você só oferece isso para si mesmo do mesmo jeito que ofereceria para uma criança que você ama.
Depois que esse calorzinho começa a aparecer, você abre o segundo círculo, você traz a mente a alguém que você ama de verdade, alguém fácil, um amigo querido, um filho, um avô. E você deseja para essa pessoa as mesmas coisas, que você esteja bem, que você esteja em paz, que você seja feliz. Repara que com essa pessoa é fácil. O coração já quer isso naturalmente, esse círculo serve para você sentir o gosto do que é meta de verdade. Aí vem o terceiro círculo, e ele é interessante, é uma pessoa neutra, alguém que você nem ama nem odeia, o atendente do mercado, o vizinho que você só cumprimenta, uma pessoa que existe na sua vida mas que você nunca parou para desejar nada, e você deseja para ela também, que você esteja bem, que você seja feliz.
E aqui acontece uma coisa estranha e linda, você percebe que aquela pessoa anônima, que era só parte da paisagem, também tem uma vida inteira, também tem medos, contas, sonhos, gente que ama, ela vira gente de verdade na sua frente, e só então, quando o coração já está mais aberto, você chega no último círculo, o mais difícil, a pessoa com quem você tem dificuldade, aquela que você pensou lá no começo, e você não precisa fingir que gosta dela, você não precisa achar que ela está certa, você só experimenta desejar, mesmo que com dificuldade, que ela também não sofre, que ela também encontre paz, porque pessoas em paz machucam menos, a dor delas costuma ser a raiz da dor que elas espalham, e no fim, você abre o coração para todos os seres, para a cidade inteira, para o país, para o mundo, que todos os seres, em todo lugar estejam bem, estejam em paz, estejam felizes, e aqui eu quero parar para te contar o que essa prática faz por dentro, porque parece que meta é sobre os outros, mas o segredo é que quem mais ganha é você, pensa numa coisa, quando você guarda raiva de alguém, quem carrega aquele peso o dia inteiro, você, a pessoa nem sabe, você é que dorme mal remoendo, o rancor é um veneno que a gente toma esperando que o outro morra, a meta é o contrário disso, é soltar o peso, não pelo outro, por você, você não está deixando a pessoa livre, você está se deixando livre dela, e tem uma coisa que a ciência hoje confirma, mas que o Buda já dizia há dois mil e quinhentos anos, quem pratica desejar o bem dos outros com regularidade fica mais calmo, dorme melhor, se sente menos sozinho, o coração que treina para ser gentil sofre menos, porque a bondade não é fraqueza, é força, é preciso muito mais coragem para desejar paz para quem te feriu do que para alimentar a raiva, a raiva é fácil, ela vem sozinha, a meta é escolhida, aqui vai uma coisa para hoje, antes de dormir ou em qualquer momento parado do seu dia, faça só o primeiro círculo, o mais importante, coloque a mão no peito se quiser, e repita para si mesmo, devagar, que eu esteja bem, que eu esteja em paz, que eu seja feliz hoje, só isso, comece por você, sem cobrança, sem achar que precisa merecer, e se sobrar um pouco de calorzinho, manda para uma pessoa que você ama, e se você for muito corajoso, no fim, sussurra um pouquinho dele para aquela pessoa difícil que apareceu lá no começo, não porque ela merece, mas porque você merece viver mais leve, meta não muda o mundo de uma vez, ela só muda, gota por gota, a água em que você nada todo dia, e quem nada em água mais doce sofre menos.