Imagine que, no meio da noite, quatro figuras de luz aparecem diante de você. Não vieram pedir favores nem oferecer riquezas. Vieram só com perguntas. Quatro enigmas. E o jeito como você responde vai dizer. Melhor do que qualquer currículo. Quem você realmente é. É essa a situação de um rei numa antiga história. E o que ele descobre é que sabedoria não é saber muita coisa. É enxergar com clareza aquilo que a maioria das pessoas prefere não olhar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda. De quando ele ainda estava se tornando Buda. A vida toda atravessada de aprendizado.
Às vezes ele aparece como animal. Às vezes como humano. Nessa, ele é o conselheiro mais sábio de um reino. Um homem chamado, nessas histórias, simplesmente de o sábio da corte. Aquele a quem o rei recorre quando ninguém mais tem resposta. A coisa começa numa madrugada quieta. O rei dormia no seu palácio quando foi acordado por uma claridade estranha entrando pela janela. Ele abriu os olhos e viu, parados no quarto, quatro seres luminosos. Eram quatro divindades, quatro devas, que vinham de um mundo mais alto. E eles não estavam ali à toa. No tempo deles, lá no mundo dos deuses, esses quatro tinham sido pessoas comuns.
E quando ainda eram gente, tinham feito coisas terríveis. Coisas que vinham assombrando o pouco de consciência que lhes restava. Agora, transformados em devas, eles carregavam quatro frases. Quatro fragmentos de algo que tinham dito ou ouvido no momento das suas piores escolhas. Quatro enigmas. E ninguém, em mundo nenhum, conseguia explicar o que aquilo significava. A inquietação era tão grande que eles desceram à terra para perguntar ao homem que diziam ser o mais sábio entre os mortais. Só que tinha um detalhe. Antes de chegar ao rei, eles passaram à noite vagando. E o medo deles era tanto, a aflição com aqueles enigmas era tão pesada que cada um dos quatro só conseguia pronunciar uma única palavra, uma palavra cada.
E é com isso que eles aparecem diante do rei. Quatro deuses, cada um repetindo, com vós tremeda, uma palavra solta no ar. O primeiro devolhou para o rei e disse, "Du." O segundo, logo atrás, disse, "Sá." O terceiro disse, "Ná." E o quarto, por último, disse, "Sou." E só quatro sons, quatro sílabas, sem nada que as ligasse. O rei, que era um homem bom mas não treinado nas profundezas da mente, ficou apavorado. Ele não fazia ideia do que aquilo queria dizer. Achou que fosse algum presságio, que os deuses estivessem vindo a anunciar a destruição do reino, a sua própria morte. Passou o resto da madrugada acordado, suando frio, contando as horas para que amanhecesse.
Assim que o sol nasceu, ele mandou chamar o seu conselheiro, o sábio da corte, o futuro Buda. Contou tudo. A luz, os quatro seres, as quatro palavras. Du, sa, na, sou. O que isso significa? Estou condenado, e aqui repara na calma do sábio. Ele não se assustou. Não fez cara de mistério para parecer importante. Ele ouviu com atenção, ficou um momento em silêncio, e então disse, com a tranquilidade de quem reconhece uma velha verdade, majestade, não ameaça nenhuma contra o Senhor. Essas não são palavras de presságio, são pedaços de confissão. Cada um desses quatro seres foi, um dia, uma pessoa que cometeu uma grande maldade, e cada palavra é o começo de uma frase que ficou presa na garganta deles, a frase que cada um disse ou pensou no momento em que arruinou a própria vida, e então ele completou cada uma.
O primeiro disse Du, Du é o começo de vivemos uma vida bela e cheia de dons, mas não soubemos compartilhar, não demos nada a ninguém, e por isso caímos, esse foi alguém que teve tudo e não repartiu nada. O segundo disse Sa, Sa começa em, por mais de cem anos sofremos, e ainda não chegamos ao fim do nosso sofrimento. Esse é o lamento de quem percebeu, tarde demais, o peso do que fez. O terceiro disse Na, Na é o início de, não há nenhum descanso para quem se entregou à raiva, a cobiça e ao mal. Esse reconheceu, enfim, que a paz não mora onde mora a crueldade. E o quarto disse Sou, Sou começa em, eu, que agora desço por este caminho de aflição.
Se um dia voltar a ser gente, vou ser generoso, vou ser virtuoso, vou agir com o coração aberto. Esse é o juramento de quem aprendeu, no fundo do poço, o que devia ter aprendido enquanto ainda era tempo. O rei ouviu tudo aquilo e sentiu medo escorrer para longe, não era ameaça, era um espelho. Os quatro deuses, aliviados de enfim ouvirem o sentido das suas próprias palavras, agradeceram, abençoaram o reino e cobriram o sábio de presentes antes de voltar para o seu mundo. Mas o presente de verdade ficou com quem ouvia, a chance de entender essas quatro frases antes e não depois. Agora repara no que este conto está dizendo, os quatro enigmas não são a divinhação, são os quatro arrependimentos mais comuns de uma vida inteira, não ter dado, ter sofrido a toa, ter alimentado a raiva e ter prometido mudar quando já não dava mais.
E o curioso é que cada um desses seres tinha vivido cercado de tudo, e mesmo assim só foi enxergar o óbvio quando já estava caindo, a gente faz parecido o tempo todo, vive correndo atrás de acumular, de guardar, de garantir o futuro, e adia o gesto generoso pra um dia que nunca chega, alimenta pequenas raivas no trânsito, no trabalho, nas mensagens, achando que é coisa de pouca importância, e carrega aquela promessa eterna de que um dia quando as coisas se acalmarem, a gente vai ser mais gentil, mais presente, mais inteiro. O conto está dizendo, com toda a delicadeza, não espera virar devar rependido para começar.
A virtude que importa, o dana da generosidade, o cuidado de não cultivar o ódio cabe no agora. Hoje já é um dia que aqueles seres tanto desejaram ter de volta. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa nas quatro palavras como quatro perguntas pra você mesmo, antes de dormir. Dei alguma coisa a alguém hoje mesmo pequena. Carreguei algum sofrimento que eu mesmo inventei e podia ter soltado. Deixei a raiva tomar conta de algum momento. E o que eu venho prometendo ser "eu posso começar a ser amanhã de manhã", não precisa responder bonito, só responder com honestidade. Porque a diferença entre o sábio e o deva arrependido não é inteligência, é a hora em que cada um resolveu olhar.