Hagar e o nascimento de Ismael · Gênesis 16:1–16

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 14 de 37 — em ordem cronológica

Esqueça os grandes nomes da história. O primeiro encontro íntimo com Deus não foi com um rei, mas com uma mulher grávida e invisível no deserto.

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Transcrição

Uma mulher sozinha no deserto, grávida, fugindo de uma casa onde foi humilhada. Ela não tem pra onde ir, não tem ninguém. É só uma empregada, uma estrangeira, alguém que ninguém conta na história. E então, no meio do nada, alguém a encontra e faz uma coisa que mudou tudo pra ela. Chama ela pelo nome. Essa é a história da Hagar, e é uma das mais bonitas e mais humanas do começo da Bíblia. Deixa eu te contar. Lembra do Abrão e da esposa dele, a Sarai? Deus tinha prometido pra eles um filho, uma descendência enorme, mais gente que as estrelas do céu. Só que o tempo passou, e passou, e nada de filho.

A Sarai já era idosa, e ela continuava sem poder engravidar. E aí, entra uma dor que pesa muito nessa história. A Sarai estava cansada de esperar. Naquela época, uma mulher que não conseguia ter filhos carregava uma tristeza imensa. E a Sarai olhou pra promessa de Deus, olhou pro próprio corpo, e achou que aquilo nunca ia se cumprir do jeito normal. Então, ela teve uma ideia. Uma ideia que naquele tempo era comum, mas que ia gerar muita dor. A Sarai tinha uma serva, uma empregada egípcia, chamada Hagar. E naquele costume antigo, uma esposa que não podia ter filhos podia dar a sua serva pro marido, pra que a serva tivesse um filho no lugar dela.

E aquele filho seria contado como da família. Então, a Sarai disse pro Abrão, "Olha, o Senhor não me deixou ter filhos. Vai com a minha serva, Hagar. Talvez por meio dela eu consiga ter uma família." Repara que detalhe triste. Em vez de continuar esperando a promessa de Deus, eles resolveram dar um jeito com as próprias mãos. Resolveram acelerar, fazer acontecer do jeito deles. E o Abrão concordou. E a Hagar engravidou. Mas aí, o que parecia uma solução virou um problema enorme. Porque quando a Hagar viu que estava grávida, ela mudou de atitude com a Sarai. O texto diz que a Hagar começou a desprezar a sua senhora.

Como quem diz, em silêncio, "Eu consegui o que você não conseguiu". E a Sarai ficou furiosa. Mas em vez de mirar a raiva nela mesma ou no Abrão, ela mirou na Hagar e começou a maltratar a serva, a humilhar, a tornar a vida dela insuportável. Pensa na situação da Hagar. Ela era uma serva. Não tinha escolhido nada daquilo. Foi entregue pro Abrão. Engravidou. E agora apanhava de palavra todos os dias da mulher que tinha armado tudo aquilo. E ela fez a única coisa que conseguiu pensar em fazer. Ela fugiu. Uma mulher grávida, sozinha, fugindo pro deserto, sem destino, sem comida garantida, sem ninguém, só querendo escapar da dor.

E é aí que a história fica linda. O texto diz que o anjo do Senhor encontrou a Hagar. No deserto, perto de uma fonte de água no caminho. Repara, Deus não foi atrás do Abrão, o grande escolhido. Não foi atrás da Sarai. Deus foi atrás da empregada, da estrangeira, da mulher que tinha fugido, da que ninguém ia procurar. E ele a encontrou justo numa fonte de água. No meio do deserto seco, ela tinha parado exatamente onde tinha água pra beber. E o anjo chama ela. E olha como ele chama. Ele diz, "Hagar, serva de Sarai. De onde você vem e pra onde você vai?" Ele chama ela pelo nome. "Hagar", pode parecer pouco, mas pensa, até aqui, na história, quase ninguém tinha chamado a Hagar pelo nome.

Ela era a serva, a egípcia, uma peça no plano dos outros. E agora, no meio do deserto, alguém olha pra ela e diz o nome dela. Como quem diz? "Eu sei quem você é. Eu vejo você". E a Hagar responde com honestidade. Diz, "Estou fugindo da minha senhora, Sarai, e o anjo do Senhor diz pra ela uma coisa difícil e uma coisa linda. A difícil, primeiro, volta pra tua senhora e fica debaixo da autoridade dela. Quer dizer, volta pra casa, volta pra situação dura. Não é uma resposta fácil, mas junto com isso vem a promessa. E que promessa pra uma serva fugitiva, o anjo diz, "Eu vou multiplicar muito a tua descendência.

Vão ser tantos que nem dá pra contar. Para um segundo". Essa é praticamente a mesma promessa que Deus tinha feito pro Abrão, uma descendência tão grande que ninguém consegue contar. E agora ele faz pra uma empregada estrangeira, sozinha, a beira de uma fonte no deserto. E o anjo diz mais. Diz, "Olha, você está grávida e vai ter um filho, e você vai chamar ele de Ismael. E o nome Ismael tem um sentido, quer dizer mais ou menos. Deus ouve, porque", disse o anjo, "o Senhor ouviu a tua aflição. Tá vendo, o nome do filho dela ia ser pra sempre um lembrete. Deus ouve, Deus escutou o sofrimento de uma serva no deserto que ninguém mais estava escutando.

E aí a Hagar faz uma coisa que nenhuma outra pessoa em toda a Bíblia tinha feito até então. Ela dá um nome pra Deus. Ela fica tão impressionada de ter sido vista, encontrada, ouvida, ali no meio do nada, que ela diz, "tu és o Deus que me vê, o Deus que me vê". E ela pergunta, espantada, "será que eu realmente vi aquele que me vê? Será que aqui no deserto eu consegui enxergar aquele que enxerga a mim? Foi tão forte aquele encontro que até a fonte de água ali ganhou um nome novo, ligado a isso. O poço daquele que vive e me vê". E a Hagar voltou, voltou pra casa do Abrão, e teve o filho.

E o Abrão deu pra ele o nome de Ismael, exatamente como o anjo tinha dito. E é aqui que eu paro pra pensar, porque essa história no fundo é sobre ser visto. A Hagar era a última pessoa que alguém imaginaria que Deus fosse procurar. Ela não era a escolhida, não era a esposa, não era a importante, era uma serva usada num plano que não foi dela, maltratada, e depois jogada no deserto. E foi ela quem Deus foi buscar, pelo nome. Tenho uma coisa nisso que me toca demais, a ideia de um Deus que não enxerga só os grandes nomes da história, que vê justamente a pessoa que se sente invisível, a que fugiu, a que acha que não importa pra ninguém, e tem ainda outra camada.

Lembra que toda essa confusão começou porque o Abrão e a Sarai cansaram de esperar e resolveram dar um jeito com as próprias mãos? Pois é, quando a gente tenta forçar uma promessa, atropelar o tempo, geralmente sobra dor pra alguém. E muitas vezes não é pra quem decidiu, é pra quem estava embaixo, sem voz. Mas mesmo no meio dessa bagunça toda, feita por gente que errou, Deus não esquece de ninguém, nem da serva, nem da estrangeira, nem do menino que ainda ia nascer. Aqui vai uma coisa pra hoje, olha em volta hoje, e procura uma pessoa que costuma passar despercebida, alguém que serve, que trabalha, que está ali, mas que ninguém realmente vê.

A pessoa que entrega, que limpa, que atende, que está no canto da sala, e hoje faz uma coisa simples, pergunta o nome dela, e chama ela pelo nome, foi isso que mudou tudo pra Ragar no deserto. Não foi um milagre enorme, foi alguém dizer o nome dela, foi ela descobrir que era vista. Às vezes a coisa mais poderosa que você pode dar pra alguém é simplesmente deixar claro que você a enxerga.